OS LIBANESES DO CEARÁ – Jornal O Estado

“O Líbano ergueu-se diante de mim com seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”. D.Pedro II ,novembro de1876
Conta a história que o século 19 não foi muito prazenteiro com os libaneses, especialmente os que obedeciam a ritos cristãos e estavam encravados em áreas montanhosas do norte do Líbano, onde os recursos naturais eram parcos e a vida se tornava difícil. Zahle era um desses lugares. O País vivia sob a força do império turco-otomano.
O destino que pretendiam os primeiros imigrantes, muitos dos que vieram para o Brasil, era a América, não a do Sul, onde aportaram, mas a do Norte, para a qual não tinham visto de entrada. Os passaportes eram turcos, face a dominação.
Consta que a visita ao Líbano, em novembro de 1876, do Imperador D. Pedro II, também facilitou o processo migratório que teve como destino principal o Estado de São Paulo. Alguns desses, em diáspora já interna, vieram ter à Amazônia, seduzidos pelo ciclo da borracha. Outros, por razões diversas, chegaram ao Nordeste e ao Ceará.
A revista paulista Carta do Líbano, dirigida pelo jornalista Fouad Mitri Naime, em edição deste ano, mas não datada, publicou número especial sobre a imigração libanesa no interior e na capital do Ceará.
Nesse número são contadas histórias dos troncos dos imigrantes das famílias libanesas que, desde o final do século 19, aportaram na Praia de Iracema, então Praia do Peixe, antigo porto ou trapiche de Fortaleza.
Os primeiros imigrantes libaneses cumpriram etapas honradas de adaptação às cidades do interior e na capital. Primeiro como mascates. Depois como varejistas, logo em seguida no atacado e daí para a indústria. Eram valorosos e aqui tiveram boa acolhida, provinciana que era a maioria das gentes locais.
No Ceará, a partir de 1888, com a chegada de Demétrio Dibe, natural de Tripoli, estado litorâneo ao Norte do Líbano, deu-se a benfazeja “invasão” de emigrados libaneses que aqui, com toda a energia e esperança, fincaram raízes profundas que hoje dignificam e muito significaram para o nosso desenvolvimento.
Segundo César Aziz Ary, engenheiro e professor da Universidade Federal do Ceará, em parceria com o advogado, empresário e ex-cônsul honorário do Líbano do Ceará, Samir Jereissati, foi realizado um levantamento que identificou a existência de mais de 100 sobrenomes libaneses aqui sedimentados.
A saber: Abdalla, Abbas, Aboud, Acário, Abu-Marrul, Allan, Arsênio, Ary ( Al Kary), Asfour(Asfor), Assad, Assef, Auad, Azin, Al-Hauch, Bachá, Belem, Barha(Braga), Baquit, Bardawil, Barguil, Bayde, Bassila, Bittar, Boutala, Bouaiz, Braide, Brandan, Buhmara, Busgaib,Carrah, Carate, Cateb, Catrib, Chaib,Chehab, Daher, Demes, Dibe,Dieb,, Duailibe, Dummar, Elias, Farah, Feres, Fecury, Gazelli,Hachem, Haddad,Hamdan, Hagge, Havache, Hissa, Hakimmi, Hellal, Hiluy, Hosn, Ibrahim, Irucus (Roque), Jereissati, Jorge, Kalil, Kayatt, Karam, Kalume, Karbage, Kassuf, Koury, Kham,Kubrusly, Lazar, Lobo (Dib), Lopes (Lubus), Lattif, Mahamud, Mansur, Midauar, Mustafá, Mutran, Najar, Namem, Nasser, Nazar, Nedef, Nógimo, Okka, Otoch, Rachid, Rabay, Rassi, Romcy(Homsi) Rouquez (Roque), Safadi, Said, Salem, Salomão, Sarquis, Saker, Sater, Simão, Skeff, Sleiman, Tahim, Tajra, Tauil, Tebet, Turbay, Zahlut e Zarur.
Hoje, entranhados com sobrenomes de origem portuguesa e de outras nacionalidades, são parte importante da sociedade cearense, sem os quais a nossa história seria, sem dúvida, bem distinta e mais pobre.
É cantado e consabido o arrojo, o destemor e a energia dos que, por muitas razões, saem de sua pátria e, enfrentando obstáculos linguísticos e culturais, conseguem, em pouco mais de cem anos, formar uma descendência tão ilustre quanto as dos filhos, netos, bisnetos e já tetranetos de imigrantes libaneses no Ceará.
Em qualquer área do conhecimento humanístico, cientifico e tecnológico, e em múltiplos ramos de negócios e na política, avultam nomes libaneses originais ou já adaptados por questões fonéticas. Hoje, sem dúvida, grande parte do produto interno bruto cearense tem origem nas poupanças consolidadas e transformadas em forças motrizes do nosso desenvolvimento social.
Este artigo não é louvação, mas dever de um não libanês para com tantos patriarcas imigrantes que, do nada, conseguiram estruturar famílias e consolidar patrimônios em terra tão adusta como o Ceará.
A edição especial da Carta do Líbano e o livro As famílias libanesas no Ceará, de César Aziz Ary ao meu olhar, deveriam ser distribuídos em bibliotecas e escolas públicas cearenses, ao mesmo tempo que, digitalizadas, deveriam constituir sites e blogs que difundissem e perpetuassem as histórias das muitas famílias hoje amalgamadas com ascendências locais, pois muitas gerações já se cristalizaram na sociedade local. Shukran.
Ponte dos Ingleses ou Ponte Metálica
A Ponte dos Ingleses, também chamada de Ponte Metálica, está localizada na Praia de Iracema, Fortaleza, Ceará, Brasil. Foi um projeto de melhoramento da estrutura portuária de Fortaleza. A construção do viaduto Lucas Bicalho foi iniciada em 24 de setembro de 1921, pela empresa inglesa Norton Griffts Co., para servir de porto da cidade de Fortaleza, em substituição da antiga Ponte Metálica (ponte ao lado, próxima da Avenida Almirante Tamandaré). No entanto, nunca funcionou como porto. O viaduto integrava o ante-projeto de um porto-ilha proposto pelo engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, e desenvolvido pelo engenheiro Lucas Bicalho. As obras foram iniciadas em 1921, durante o governo do presidente Epitácio Pessoa, e foram suspensas no governo de Artur Bernardes, no qual permaneceu inconclusa. Em 1994, foi aprovado um projeto de recuperação da ponte através da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. A ponte foi recuperada e urbanizada para o uso público, além de ter recebido uma armação de madeira sobre parte do viaduto, projeto dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon, também responsáveis pelo projeto arquitetônico do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Atualmente, a Ponte dos Ingleses conta também com um Núcleo de Proteção dos Golfinhos e uma Torre de Observação de Cetáceos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2015

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