O COMPUTADOR, AS NOTÍCIAS, OS FATOS E OS BOATOS – Jornal O Estado

Gostaria de não usar computador, mas sou obrigado, por dever de ofício e por escrever todas as semanas em dois jornais. Gostaria de, como usuário, não receber spams, essa chatice que todos os dias somos obrigados a tentar exterminar. Mera ilusão. Se você bloqueia um remetente, o mesmo spam surge de outras fontes. São os captadores profissionais a se transformar em vendedores de e-mails, fustigando o que escrevemos, o que consultamos no Google para pesquisas de trabalho e para mero deleite.
Tudo fica definitivo nas nuvens, não as das bonanças, pois turvadas por desesperança coletiva a se apoderar do país que mudou de humor de forma rápida. Ao mesmo tempo, a crise que não chegaria por aqui faz morada na mente e no bolso de todos. Independente de quem somos, fazemos ou temos.
Ver noticiários de televisão –não estou falando dos programas policiais de muitos canais com profundos apelos mórbidos e linguagem nada sutil – tornou-se um misto de sadomasoquismo e de aversão espontânea. A procura do fato -ou boato- a dar índices de audiência não tem limites e tampouco segue a cartilha dos bons propósitos.
Os jornais impressos, estes combatentes contra a falácia do mundo virtual, ficam jungidos às circunstâncias e dependem de anunciantes, de projetos especiais, de assinantes e cumprem, da forma possível, um papel relevante para informar e comunicar. Sofrem ainda a concorrência de blogs e sites de notícias, feitos por qualquer um, escrevendo o que lhe der na cabeça, com ou sem pudor, movidos a interesses confessáveis ou não. “La nave vá”.
Não vou repetir o que o escritor Umberto Eco tem dito, mas ele está coberto de razão e a sua indignação faz sentido. Em um mesmo noticiário, seja da Europa ou das Américas, da Ásia ou do Oriente Médio, há uma mistura de assuntos que vão do incômodo da família real inglesa com os netos de Diana, da morte de jovens negros por policiais americanos e passa pelos avanços do Estado Islâmico na Síria e adjacências.
A partir da Grécia, há crise se espraiando pela Europa fustigada por imigrantes evadidos de suas próprias pátrias. Eclode uma insanidade geral a não se importar com os muitos mortos afogados ou nos porões dos atuais navios negreiros. Sequer há saída transitável para os refugiados sobreviventes em campos vigiados.
As filhas do presidente Obama são objeto de fotos de “paparazzi” em quaisquer movimentos que façam, sejam mera saída da “Casa Branca” ou em viagem nas férias neste verão do hemisfério norte.
Que culpa tem Nelson Mandela em sua paz eterna ou no mero fim do seu corpo se um neto seu está envolvido em estripulias com uma jovem de 15 anos?
Giselle Bündchen é supostamente vista usando uma burca em clínica de cirurgia plástica em Paris e, ao mesmo tempo, é obrigada a dizer se o seu casamento com o atleta Tom Brady está bem ou vai mal.
Vão falar que tudo é o preço da fama, da linhagem real, do destaque político, profissional ou social. Alguém sai do espaço cinza anódino e entra na ciranda do disse-me-disse. E olha que não estou falando das costumeiras discussões sobre o direito de cada pessoa escolher o que lhe convém para o bem e para o mal.
O Papa Francisco vai em setembro aos Estados Unidos e só abordam pedofilia e a venda de imóveis pela Igreja Católica em 40 dioceses ianques. Bispos afirmam que os seus rebanhos diminuíram e templos se quedam vazios. Vender é alternativa lícita, mas alguns advertem dos problemas não tão recentes com o Banco do Vaticano.
Estamos em águas turvas. Os algoritmos a expandir as mentes dos jovens cientistas bilionários do Vale do Silício, na Califórnia, são os mesmos usados por contrabandistas, por vendedores de armamentos, por financiadores de carteis de drogas e por “hackers”. Capazes de tudo.
Mesmo assim, não é o dilúvio, tampouco o “Armagedon”. Há gaivotas anunciando novas terras, crianças nascendo e as noites trevosas podem antecipar manhãs radiantes. Como dizia Adolph Gottlieb, pintor abstrato estadunidense do século passado: “meus símbolos favoritos são aqueles que não entendi”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2015

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