Domingo passado, levei irmã – e marido – que vive na Alemanha há décadas, para visitar o Passeio Público. Vêm, todos os anos a Fortaleza. Mostrei as masmorras antigas e falei sobre os mártires. Referi sobre a insurreição “República do Equador”, em 1824. Ali, um campo aberto, foram assassinados, entre outros, o Padre Mororó, o Pessoa Anta e o Cel. Carapinima.
A ideia, entretanto, era mostrar o lado “belle époque” de Fortaleza, iniciado com a edificação da praça, em 1864. Expliquei haver níveis sociais e de piso no uso do antigo Passeio Público. A parte de baixo, “a rampa”, foi objeto do poeta Antônio Sales. No jornal “O Pão”, anno 1, n.01, pág. 3, de 10 de julho de 1892, Sales alude: “A Rampa era a Rocha Tarpeia ao pé da Avenida que é o Capitólio da honestidade. Em cima, a avenida alagada de luz e sonoridade de música, deixava-se calcar pelos pésinhos ágeis das virgens cearenses, que iam e vinham numa garrulice de aves novas; embaixo o vício sórdido florescendo na lama ilusória da treva…”.
O meu remoto parente Adolfo Caminha, no mesmo “Pão”, número 02, semana seguinte, reclamava: “Para matar o tédio que nos mina e consome a existência, somos obrigados a ir, às quintas-feiras e aos domingos ali no Passeio Público exibir a melhor de nossas fatiotas e o mais hipócrita e imbecil de nossos sorrisos”.
À sombra de frondosas árvores, entre rasgos de ventos e frestas de sol, ouvimos jazz por músicos sessentões. Não há mais a “rampa”, nem a “cinza”. Somos passantes a olhar a misericórdia da Santa Casa e o mar atlântico tão verde quanto à esperança brasileira nesta Semana da Pátria.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2015.

