“A história universal é a de uma só pessoa”.
Jorge Luís Borges
Quando conheci Valdelice Carneiro Girão ela já era professora formada em geografia e história. Morava com mãe e irmãos na Rua D. Sebastião Leme. Eu era adolescente e sempre gostei de conversar com pessoas cultas e mais velhas. Valdelice foi uma das escolhidas. Em decorrência desses encontros, surgiu a ideia de se criar um grupo para congregar jovens e adultos.
Surgiu, então, o GIRAFA- Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Pelo nome, notam-se as palavras instrução (informação e conhecimento), recreação (brincadeiras em épocas de Carnaval, Semana Santa, São João, Natal e férias), atlética (equipes de voleibol). Todos moravam perto, no Bairro de Fátima. Lembro que até editei alguns números do jornal “GIRAFA”, em mimeógrafo, equipamento hoje em desuso em face da tecnologia voraz.
Fui escolhido para ser o primeiro presidente do Girafa e levei a missão a sério. Até júri simulado aconteceu. Era uma Semana Santa. Resolvemos fazer julgar Judas Escaríotes. Fui escalado para defendê-lo. Vali-me da Bíblia e invoquei estar escrito que um dos discípulos traria a Jesus. Ora, se Judas era apenas instrumento da vontade divina, como poderia ele se esquivar de tal predestinação (Marcos 14:18)? Depois de muitos debates, com a presença do futuro Juiz de Direito, José Carneiro Girão, Judas foi absolvido. Mesmo assim, foi malhado e queimado, como de praxe.
Esta introdução foi o aplique que encontrei para a tessitura pela minha agulha imagética em homenagem à acatada amiga e Mestra Valdelice. Ela era antropóloga e historiadora que dedicou grande parte de sua vida ao Instituto do Ceará, não só como sócia efetiva, mas como secretária geral.
Valdelice lançou em 2013 o seu último livro, “Renda de Bilros”, bem cuidado, capa dura, parte da Coleção do Museu Arthur Ramos, editado pelo Instituto do Ceará. Na Introdução, ela diz: “As rendas de bilro do Museu Arthur Ramos, da Universidade Federal do Ceará, estão divididas em duas partes: Coleção de Luísa Ramos e Coleção Rendas do Ceará” …“Nossa experiência se limita, pois ao Ceará”. Na verdade, ela cobriu tudo o que o Brasil produziu.
Depreende-se do lido e do transcrito, o zelo da professora Valdelice se faz notar nas 267 páginas do livro, enriquecido por fotos monocromáticas e coloridas de Delfina Rocha e do acervo do Museu Arthur Ramos. A pesquisa dela abrange não apenas o Ceará, mas Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
No Ceará, os maiores centros de produção e comércio de rendas ainda resistem em Aquiraz, Fortaleza, Caucaia, Aracati, Beberibe, Guanacés, Quixadá, Limoeiro do Norte, Maranguape, Morada Nova, Mundaú, Pacajus, Redenção, Russas e Várzea Alegre. Em Fortaleza, podem ser encontradas no Mercado Central, no antigo presídio/ Emcetur e no Centro de Artesanato Luiza Távora.
Como se sabe, as rendas de bilros surgiram na Europa, na Idade Média. Para o Brasil foram trazidas e ensinadas por mulheres de portugueses aqui aportados no século XVIII. Esse delicado artesanato é festa para os olhos e realça as roupas e adornos femininos. As tramas são copiadas ou inventadas no fantástico mundo criativo de mulheres assentadas em bancos, debruçadas sobre almofadas recheadas de alfinetes, linhas e bilros. Por fim, relembro com saudade aquele tempo no ainda emergente Bairro de Fátima. Reverencio, por justiça, o nome honrado e culto de Valdelice Carneiro Girão.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2015.

