“Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados”. Miguel de Cervantes, escritor espanhol.
O passaporte verde nos identificava nos aeroportos além mar. Os guardas aduaneiros, independente da língua que falavam, sempre nos olhavam com ar maroto, como se fossemos alguém singular, exótico e vindo de um país “do outro lado do mundo”, o Brasil. Após as perguntas de praxe (quanto tempo vai ficar, negócios ou turismo, hotel etc.) carimbavam o passaporte e, se simpáticos, davam um sorriso. Outros, nem isso.
Há algum tempo mudaram os nossos passaportes para a cor azul, com o nome MERCOSUL – qual seria a função desse pomposo nome? Imitar a União Europeia? Imagine. Continuaram a manter a validade em cinco anos quando há vistos com dez anos em curso. Assim, ao viajarmos, precisamos, algumas vezes, levar dois passaportes. Nesses passaportes há duas fotos distintas de uma mesma pessoa, sem retoques, clicadas no órgão emissor, a Polícia Federal. O tempo, esse nada amistoso amigo das faces, nos mostra como éramos, em tempo preterido e, como somos, em época mais recente. Há diferenças, sutis ou não, e os guardas alfandegários nos pedem para tirar os óculos, mirar uma micro-câmera e, por seus trejeitos, parecem conjeturar, se as duas fotos são da mesma pessoa. Enfim, nos dão crédito e entramos, felizes, no dito primeiro mundo.
Não importa o lugar que vamos, nós levamos o nosso jeito de ser, um pouco maquiado por verniz leve e de fácil corrosão. Agora, neste janeiro, é tempo de férias e as colunas sociais ficam cheias de notícias dos que vão e dos que chegam. Os que chegam celebram as vindas com fotos com sobretudos e cachecóis e sempre com alguma imagem ao fundo a identificar o país visitado. E como muitos vão a Miami e a Nova Iorque, voltam abarrotados de compras. Os brasileiros compraram bilhões de dólares em 2013. Verdade. Cada brasileiro tem direito a 32 quilos de bagagem, afora as mochilas, as sacolas, as bolsas das mulheres, os excessos pagos e as sofridas compras de última hora nos “free-shops” entregues às portas do avião, causando transtorno no embarque dos outros não compradores.
A propósito, muita gente fala mal de Miami sem conhecê-la, na verdade. Faz uma barafunda em “malls” e “outlets” ou o circuito dos restaurantes, bares e hotéis onde os brasileiros se mostram uns aos outros. Miami é hoje uma cidade com vida cultural intensa, shows de artistas renomados e a arte é contemplada com museus de qualidade bem superior a muitos do Brasil. Quem quiser saber de cultura e arte tem várias opções. Não sou agente de viagem e nem escrevo livros ou artigos citando pontos turísticos.
Os museus e centros de arte de Nova Iorque não precisam ser nominados, pois constam dos roteiros turísticos e servem para fotos de suas fachadas externas. Eles, na sua maioria, cobram ingressos. Em Miami, com a devida vênia e sem rabugice, há lugares de arte e cultura. Experimentem na próxima viagem: Moca – Museu de Arte Contemporânea; o Wolfsonian, na Florida International University; o consagrado Bass Museu; e o novo PAMM -Pérez Art Museu Miami. Todos merecem uma visita que custa cerca de vinte reais. Em tempo, o Art Basel é gratuito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2014.

