A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita.
Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O “Tico”, pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela.
A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias.
Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer.
Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias.
À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do “Tico”, a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava.
Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a “bênção” que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014

