“É prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples”. Ralph W. Emerson, ensaísta americano, sec. 19
Duas escritoras cearenses sofreram, recentemente, árduas apreciações em resenhas feitas por críticos da Folha de São Paulo. Uma é renomada, premiada, tem densidade e sabe escolher os temas de seus livros, que fogem do trivial, do enredo que se convencionou usar para produzir um “best seller”. Ela não faz concessão, pesquisa caminhos não fáceis de recontar histórias e esmiuçar a produção/vida de escritores para um público mais exclusivo. É o seu jeito.
A outra, mais jovem, já ganhou o prêmio “Jabuti”, por obra que pretende dar alternativas às crianças que acham densas as estórias infantis de Monteiro Lobato. Agora, ela “regionalizou” uma história e teve a coragem de falar, de forma solta e até honrada, de iniciação feita em Cuba com Gabriel García Marquez. Pois bem, sofreu críticas sobre o seu enredo e tessitura. Ela deve perseverar.
As duas não mereciam esse preconceito. Mesmo apresentadas por editoras seletivas – e de porte – sofreram por não participar do círculo concêntrico dos que pretendem ter a primazia de ditar “quem é quem” na escrita neste Brasil de tão parcos leitores. As grandes livrarias brasileiras, depois da injeção de capital pelo lançamento de ações na Bolsa de Valores, vendem mais autoajuda, CDs e revistas que livros de verdade.
Sabem os escritores de fato que a literatura é defesa às contundências do lugar comum, do óbvio que deleita os que não têm vocabulário restrito ou pouca imaginação para mergulhar no escafandro do conhecimento. Por outro lado, esses mesmos críticos do sudeste tecem loas ao refinamento de Cristovão Tezza em “O Professor”. É claro que é um bom livro, mas é fórmula muito em uso na Europa e Estados Unidos. Heliseu, o personagem, revive no dia em que será homenageado por sua carreira de professor e filólogo, a sua existência. Ele repassa a sua história pessoal, as desditas familiares, a morte da mulher, um caso de amor com colega francesa, a distância e brigas com o filho, dúvidas na escolha da gravata e, por fim, a consciência de que a matéria que consumiu a sua vida está em extinção, enquanto emerge a força da linguística. Veste um paletó preto, sem gravata, e sai solitário para o último tributo. A trama urdida tem similar.
É questão de gosto, nada contra Tezza. Ele escreveu como quis e o fez bem, mas porque será que nós, desta banda do Brasil, somos tão discriminados? O governo de Pernambuco – não só o atual –, pelo menos, criou a revista “Continente”, que é editada pela Imprensa Oficial com primor e dá espaço aos nomes mais significativos das letras maurícias. Rachel de Queiroz foi a última cearense na Academia Brasileira de Letras. Com um detalhe: ela morava no Rio, desde sempre.
Talvez seja por tal razão que estejamos ilhados em nossas “igrejinhas” e turmas, sem que se formulem ideias para dar realce aos que merecem. Não há, faz tempo, sintonia fina entre a Secretaria da Cultura e as nossas principais instituições literárias. A opção – e brigas – por editais e a vinda de nomes pouco celebrados parece ser a constante. E, por favor, não remontem o modelo ultrapassado de bienais do livro, amontoado de encalhes de editoras, palestrantes manjados de um “Road show” já carcomido pelo tempo e as visitas guiadas de estudantes de escolas públicas, estranhos no ninho pela deficiência endógena do tema literatura nas grades curriculares.
É hora de desafios. Tirar crianças da frente de joguinhos coloridos e sonoros de um computador ou celular é desafio para todos os que querem ver o Brasil sair do atoleiro da ignorância que nos fere a alma.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2014.

