Cansei de feriados. Na forma como eles estão brotando no Brasil, causam enfado e quebram o ritmo de trabalho. De repente, quinta parece segunda, e no dia seguinte é sexta véspera de fim de semana. A preguiça, onipresente segundo Mário de Andrade, em “Macunaíma”, vai justificando o letargo. E, por conta disso, um ar de pasmaceira invade o nosso olhar ao contemplar faixas de algodãozinho com palavras de ordem pintadas. As expressões são as mesmas. “Estamos em greve”. Um pano matizado forma sombra adicional às árvores a abrigar grevistas que reivindicam melhores salários e condições de trabalho. Tudo o que todos querem. Imagine se todos resolverem fazer greve ao mesmo tempo? E as greves geram discussões e reacendem voluntarismos que parece nada ter mais a ver com sistema de idéias do século passado.
Feriado. Fui ver o filme “Getúlio”. Estranhei como pessoas conhecedoras da linguagem gauchesca também detectaram a ausência do pronome “tu”, usual nas falas de Vargas, interpretado por Tony Ramos. O “tu”, como o empregavam Brizola e Érico Veríssimo e ainda o faz o Pedro Simon, para ficar em alguns. Tony/Getúlio sequer sorve chimarrão e a pluralidade de personagens, políticos, familiares e militares complicam o desenvolvimento do filme.
Parte da trama urdida contra Carlos Lacerda, um “ato de fidelidade” maquinado por Gregório Fortunado, o faz tudo dos Vargas. O filme é arrastado, apesar do cuidado histórico nas cenas no Palácio do Catete, da explicação preliminar do protagonista e das fotos/dos créditos, ao final. Feriado dá nisso.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2014

