Abstração é substantivo feminino, sabe-se. Na arte, a abstração é algo mais complexo, parte, quiçá, da interpretação filosófica de espaçar mentalmente coisas, fatos e representações. O abstracionismo como arte, entretanto, não carece de explicação laica como a que tartamudeei acima. Foi no começo do século 20 quando Kandinsky e Piet Mondrian romperam com os cânones então vigentes e começaram a fazer “garranchos”, traços, curvas, pontos e retas sem que aparecessem figuras, mas clarificassem a densidade das cores ou a inovação do indizível pelos já contaminados com a pintura clássica.
O nariz de cera acima objetiva dizer que há na Unifor uma ampla exposição abstracionista em curso com entrada pela Washington Soares. Muito se falou dela. É bom que mais se diga. Use o seu tempo livre e tente abstrair-se do mundo real que o sufoca. Vá lá, não se paga nada e, se a modéstia permitir, peça ajuda a alguma pessoa treinada para caminhar com você em todo o percurso que medeia a junção de parte dos acervos da Fundação Edson Queiroz e da Coleção Roberto Marinho.
Darei a mão à palmatória se você seguir a recomendação e sair de lá insatisfeito. Duvido. Quando nada, poderá dizer que há mais imaginação difusa do que via antes. Poderá duvidar do seu conceito de arte pictórica, mas, decerto, sairá leve e encorpado para responder as demandas do mundo real que deixou lá fora. A arte, ao meu pensar, consiste na fusão do seu olhar com o objeto admirado. Ela, sem o seu olhar, não existe. Por tal razão, encareço, vá lá e veja.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2014

