ARTUR EDUARDO BENEVIDES, POR ELE MESMO – Jornal O Estado

Artur Eduardo Benevides, poeta, professor e “Príncipe dos Poetas Cearenses”, morreu no último domingo, 21 de setembro de 2014. Era o presidente de Honra das academias Cearense e Fortalezense de Letras. Seu corpo foi velado, desde a noite do falecimento, no salão principal do Palácio da Luz. A missa de corpo presente foi celebrada na manhã de segunda-feira, de forma lírica, didática e sentida pelo acadêmico monsenhor Manfredo Ramos.
O Presidente da ACL, José Augusto Bezerra, com postura reverencial, disse da imensurável perda sofrida pela literatura cearense e, especialmente, pela Academia Cearense de Letras, da qual Artur foi acadêmico (cadeira 40) e presidente por uma dúzia de anos. Mauro Benevides, acadêmico e sobrinho, fez o seu panegírico. Adequado, encadeado e circunspecto.
Hoje, nesta sexta-feira, cedo este espaço hebdomadário ao próprio Artur Eduardo Benevides, não sem antes citar Homero, poeta grego (séc VIII-VV a.V), na Odisseia:
“Para todos os homens sobre a terra, os cantores/são dignos de honra e respeito, pois a Musa/ensinou-lhes os cantos; ela ama os cantores”.
Artur Eduardo cita Homero, em solilóquio, na orelha da antologia “Milênios de Poesia (E Prosa)”, organizada por Antônio Pompeu de Araújo, em 2003, onde anota:
“A poesia vive e reina por colher e guardar em seus ritmos e formas o segredo da beleza. Pelo menos é o que procuram fazer os poetas, em todos os pontos do mundo, de Homero e Salomão aos atuais. Ao contrário do que tanto pensam, no Brasil, o gênero não decaiu, nos dias que correm. Os grandes nomes das gerações de 22 e 30 já se foram e não há muitos, com a mesma atitude, a apontar agora. Se perdeu um pouco em qualidade, a quantidade avulta, em todas as regiões do País. E há excelente poetas no pastoreio das palavras e metáforas, procurando manter a tradição cultural. Poesia é gênero difícil. É a arte em que poucos adquirem a glória e muitos ficam a lutar para obter melhores resultados, o que, aliás, sempre ocorreu. Ela exige, antes de mais nada, talento, que é uma cousa pessoal e intransferível, sem a qual nada se produz que mereça aplausos. Remando, o mais das vezes, contra a maré dos leitores, prosseguem os poetas, grandes e pequenos, em seu trabalho criador, lançando livros e mantendo acesa a pira sagrada que encanta o espírito.”
Saio do ensaísta Artur Eduardo Benevides e remeto o leitor para a sua última obra poética, lançada em 2004, “Cantares de Outono ou os Navios Regressando às Ilhas”, com este definitivo poema:
“De repente/tudo se faz urgente. Meu tempo (irresgatável) morre./A última esperança me socorre./E a poesia/É a única forma de sabedoria./ Onde, contudo, nos aguardarão/as uvas do Paraíso e da Canção?/Tendo em mim o azul das valsas dos coretos/ou os queixumes finais de lívidos sonetos./Sou o que sobrou. Fui./ O verso, em êxtase, flui/. E sei, quanto menos navegar,/ mais terei as súplicas do mar”.
Resquiescat in Pace.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/09/2014

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