MONÓLOGO UTÓPICO – Diário do Nordeste

Não conseguira ainda descobrir onde e quando errara. Seguira o manual do avô e, depois da morte do candidato do Nordeste, das subidas e descidas da acreana, havia chegado ao segundo turno. Na última semana, véspera das eleições, os institutos de pesquisa mostravam quadro faccioso, pensava ele. Reuniu toda a paciência do mundo e foi para o último debate.
Estudara e repisara como nunca o fizera quando estudante. Sabia as respostas na ponta da língua.
Ouvia aplausos quando retrucava as falas entrecortadas da adversária. Ela pisou no acelerador e o colocou contra as cordas imaginárias do ringue.
A senhora está sendo leviana, disse ele. Eu? Leviana? Sim, por faltar com a verdade. Mas a palavra leviana ficou no seu inconsciente. Ele que era polido, educado e costumava medir o que falava. Aprendera com o avô. Talvez tenha sido esse o erro, mas alguém dissera que, ao colocar as mãos nos bolsos das calças, enquanto a adversária falava, parecia desdenhar.
A calça “slim”, os sapatos polidos e o paletó azul com cortes laterais, o decompuseram na pecha de “playboy” que assacaram contra ele? Outro erro?
Agora, de bermudas, olhos marejados de lágrimas, ouvindo, ao longe, o barulho do trânsito do Leblon, escutava o choro dos filhos de poucos meses e não encontrava a resposta que já não mais fazia sentido.
Fora vencedor por poucas horas, no transcurso da apuração, até que a enxurrada de votos do agreste desaguou sobre ele.
Não encontrava resposta para a segunda derrota em Minas Gerais, sua terra amada. Quem teriam sido os calabares?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2014

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