“Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém nos ensina o beco para a liberdade se fazer. Sou um ignorante. Mas, me diga o senhor, a vida não é cousa terrível?” Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.
O caderno “Ilustríssima” da Folha de São Paulo, de 30 de novembro passado, traz em página dupla (fls.4 e 5) dura reportagem assinada por Anna Virgínia Balloussier, com fotos de Isadora Brant. O resumo narra: “Com as secas do início do Século 20, famintos dirigiam-se à capital do Ceará, assombrando as elites que idealizavam uma Fortaleza “belle époque”, moderna – e limpa. O governo criou campos cercados para confinar milhares de retirantes; hoje, alguns tentam evitar que a memória desses lugares se apague”.
A verdade histórica registra que Fortaleza não vivia às maravilhas já no fim do século 19. Havia doença e fome na capital. Começou na seca de 1877. Até a mulher do presidente da Província, Caetano Estelita Cavalcanti Pessoa, morreu de peste. O comerciante e político Joaquim de Cunha Freire, Barão de Ibiapina, doou 10 contos de réis para a compra de mantimentos e um terreno onde seria construído um asilo de mendicidade. José de Alencar, no Senado, dizia que a situação não era tão dramática. Era grave.
A suposta ação higienista, no início do século 20, referida por Balloussier, seria, talvez, mais cuidado contra a transmissão de doenças e prevenção contra saques dos “mendigos retirantes” do que asco. Fortaleza, em 1877, possuía 30 mil habitantes e foi invadida por quase 100 mil fugitivos da seca. 400 pessoas morriam por dia.
A longa reportagem fala até da heroína Conceição, personagem de Rachel de Queiroz no seu romance de estreia, “O Quinze”. Conceição atravessa correndo um campo e ouve a súplica: “Dona, uma esmolinha”. Ela corria “fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento”, segundo Rachel.
Balloussier explana: “Eram homens, mulheres, velhos e crianças, de cabeça raspada contra piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha, com buracos para enfiar o pescoço. Os mais robustos serviam de mão de obra em fazendas e obras públicas. Milhares morreram de fome, sede ou doenças”.
A repórter esteve no Ceará e obteve as informações acima da historiadora e professora Kenia Souza Rios, da UFC, que, em 2006, escreveu, sob o selo do Museu do Ceará, “Campos de Concentração no Ceará: Isolamento e poder da seca de 1932”. Já em 2002, Kenia escrevera o artigo “A Cidade Cercada da Seca de 1932”, enfeixado no volume “Seca”, das Edições Demócrito Rocha.
Sabe-se que os primeiros campos do século 20 foram instalados em Fortaleza, por ocasião da seca de 1915. Essa medida, tida como “higienista” ou profilática, foi autorizada pelo Governador Benjamin Liberato Barroso que tinha como vice o Padre Cícero Romão Batista. Tudo era facilitado pelo oligarca de então, o senador José Gomes Pinheiro Machado e com a graça federal do IFOCS. Os fatos, verdadeiros, nos entristecem. Todos os nossos ascendentes de Fortaleza teriam ficado amedrontados com a seca braba e a nova invasão de retirantes. O acontecido atinge ainda a memória do Padre Cícero que era o vice-governador.
Ainda em 1915, não no romance, mas na obra “A Seca”, de de Rodolpho Theófilo, citada por Balloussier, há o registro do campo do Alagadiço, mantido até a seca de 1958 com o nome de Hospedaria Getúlio Vargas. Theófilo descreve: “Um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados cerca de 7.000 retirantes”. Tive o cuidado de conversar com a professora Kenia. Ela acrescentou, ao já dito e escrito, o seguinte: “ É importante enfocar que esses espaços apareciam como lugares de assistência adequada para os flagelados da seca. Desse modo, não encontravam grande resistência por parte da elite local que se via menos ameaçada e com a sensação de dever cumprido. Uma das únicas vozes dissonantes era a do sanitarista Rodolpho Teófilo que diariamente criticava as condições dos retirantes que ali estavam”.
Embora pareça extemporâneo citar, o “O Nordeste”, jornal católico, em 17 de fevereiro de 1923, citava tal data como o ‘Dia da Extinção da Mendicância’, como uma forma de limpar o visual e a moral da Fortaleza de então. Seria, quiçá, apenas o medo de contaminação dos nativos da cidade que bebia água de lagoas e poços rasos e não possuía saneamento.
Em 1932 foram criados outros campos em Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, Cariús e Crato. Há, desde 2009, uma ação promovida pela Ong –SOS Direitos Humanos, capitaneada pelo advogado Otoniel Ajala Dourado contra a União e o Estado do Ceará pelos fatos e mortes acontecidos. Há registro de, pelo menos, 60 mil mortos nesses campos.
A narrativa que alinhavo, com a ajuda de terceiros, é conhecida e discutida por historiadores, mas deve ser bem explicitada para as gerações de hoje. Não se pode deixar passar em nuvens turvas o narrado e difundido. Não basta o registro nacional feito pela Folha com as denúncias de Theófilo, reavivadas pela professora Kenia. A história dos campos nos entristece, bem como o acontecido no “Caldeirão” da Santa Cruz, no Crato, quando as Forças Armadas, a mando de Vargas, dizimou, em 1937, a comunidade criada pelo beato José Lourenço.
A História não deve ser apenas a versão dos importantes. Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, dizia: “Não curamos do tempo, o tempo tudo escritura e surpreende-nos com suas contas monstruosas”. E arremata: “A História do Brasil dá a ideia de uma casa edificada na areia”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2014.

