OS TRANSPORTES PÚBLICOS, AS RUAS E AS SOLUÇÕES – Jornal O Estado

“Se eu tivesse medo de obstáculo não seria motoboy”. Ouvido em uma esquina.
É fácil criticar, mas é muito difícil apresentar soluções concretas para o sistema de trânsito e o transporte público em cidades adensadas com mais de dois milhões de habitantes com problemas de malhas viárias antigas, estreitas e de traçado ortogonal. É de enaltecer a ação que a atual gestão da Prefeitura de Fortaleza procura fazer com a implantação gradativa de novos viadutos e de ônibus de dupla articulação em alguns corredores de tráfego com larguras que assim o permitam.
Por outro lado, estive agora em Bogotá e pude constatar o sufoco da população para usar os ônibus articulados do projeto “Transmilênio”. Há mais propaganda que efetividade no “Transmilênio”, uma cópia remoçada do que o arquiteto, urbanista e político Jaime Lerner implantou em Curitiba nos anos 1970.
Em todas as estações ou pontos de embarque da grande cidade colombiana, com mais de sete milhões de habitantes, há longas e intermináveis filas. As pessoas, nessas estações e alas, passam mais tempo do que o desejado e recebem, querendo ou não, a ingestão de monóxido de carbono dos demais veículos que ocupam as outras faixas das vias.
Embora o “Transmilênio” tenha prometido adotar sistema que reduziria a emissão de carbono, seguindo a metodologia AM0031, da Organização das Nações Unidas, não me parece ter logrado êxito. Há uma diferença entre a pretensão de um mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL) e a crua poluição das descargas de milhões dos veículos.
O Brasil não adotou como deveria ter feito no tempo devido, por falta de recursos, de planejamento de longo prazo ou até de descaso público, as soluções universais do uso do subsolo para a implantação de linhas de trens chamados de metrôs ou “subways”. Esse modal de transporte, em países mais prudentes ou avançados, tem mais de 100 anos de implantação e são, nas grandes cidades, os recursos utilizados pela maioria das pessoas. São Paulo e Rio são exemplos desse atraso e tentam – a alto custo- superá-lo.
Há cerca de 20 anos surgiu a ideia do metrô de Fortaleza, o Metrofor, mas houve descompassos entre administrações municipais e o Governo do Estado. Em paralelo, a espera de liberação de verbas federais e financiamentos internacionais. Além do projeto inicial ter sido mudado, por imposição da administração Juraci Magalhães: os trens mergulham na afluência das avenidas José Bastos e Carapinima.
Aconteceram sucessivas paralisações, longas, médias e curtas, por carências de verbas, talvez por gestão, por fiscalizações do Tribunal de Contas da União, por novas licitações parciais e aditivos de seus trechos. O conjunto desses fatos provocou atrasos, prejuízos a terceiros com vias cercadas por tapumes.
Tudo ocorreu a destempo na execução e no ainda limitado funcionamento da primeira – e única – linha de transporte de massa que liga Pacatuba à Fortaleza. Não adianta reclamar do passado. O registro é apenas um histórico aligeirado. O atual governo do Estado tem procurado, desde algum tempo, recuperar o tempo perdido e deu passos fortes para a integração das linhas que vem de Pacatuba e de Caucaia – precária e usando óleo diesel – com a zona leste da cidade. Adquiriu máquinas “tuneladoras”, chamadas vulgarmente de “tatuzões”, pela capacidade de fácil romper o subsolo de Fortaleza, conhecidamente arenoso.
De resto, promoveu novas licitações e tudo faz crer que, ainda nesta década, teremos uma malha radial integrada que possa mitigar o caótico trânsito urbano de Fortaleza. Em paralelo a isso, está sendo implantado, no trecho Parangaba-Mucuripe, um sistema de VLT – Veículos Leves sobre Trilhos, que, no momento, causa dissabores pelos desvios, pelas paralisações e desapropriações, mas redundará, quando retomado e concluído, em benefícios e desafogos na locomoção de parte dos usuários de transportes coletivos.
Ao novo Governo, que se instala em janeiro próximo, cabe a não fácil tarefa de continuidade desses projetos em curso e, ao mesmo tempo, em conjunto com a Prefeitura de Fortaleza, estudar a substituição do uso de combustíveis fósseis dos veículos de transporte coletivo por nova matriz energética.
Os acidentes e as brigas no trânsito, inclusive com assassinatos e repetidos assaltos, são resultado, em parte, do elevado grau de estresse dos guiadores, pedestres atravessando fora das faixas, sem esquecer os balés das motocicletas que nos fazem lembrar dos circos de antigamente com os seus “globos da morte” em que duas motos, em alta velocidade, se cruzavam. Agora, surgiram as ciclovias, ainda com poucos usuários. É esperar para ver.
Atentos a tudo isso os fotos sensores multam, sem piedade, os que, por conta de buzinas dos veículos que vem atrás, param em faixas de pedestres, procuram aproveitar o finzinho do sinal verde ou se quedam imóveis em cruzamentos engarrafados. Dizia Bertold Brecht, escritor alemão: “perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva”. Mas, no trânsito, as conversões, em geral, são proibidas. E aí?
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/12/2014.

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