Quando chega a segunda quinzena de dezembro, começamos a matutar sobre o que fizemos no ano que está a terminar e o que nos espera no que chega em uma quinta-feira e, de cara, nos dá quatro dias de feriados. Em fevereiro deste ano perdi a minha mãe, viga mestra da família, ombro e conselheira de uma récua de filhos e parentes. Agora, exato no dia 8 de dezembro ganhei uma nova neta. Tristeza e alegria.
Ao olhá-la no berçário gerei um filme em flashback em que eu era o escritor, o autor do roteiro, o diretor e o protagonista. E conclui nesse filme imaginário, sem cortes e sem mudanças de diálogos verdadeiros, que muita gente fez parte do “script” não linear que é a ´vida minha e a dos outros (crédito para Beatriz Alcântara) com quem fui contracenando no grande teatro greco-romano que é o viver. O que conclui está escrito abaixo. É como se fosse uma sinopse.
Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso lhe custe a perda e a ausência de pessoas essenciais, ou se deixa invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Isso o tornará, eventualmente, triste.
Confesso, já me senti combalido por poucas vezes, duas foram duras. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você, quem quer que seja. Alegro-me, hoje, com pequenas e bobas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso público e provar roupa em alfaiate presumido. Quero andar de sapatos sem meias, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conversar com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas.
Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho que me dá prazer de criar e ser útil. Sou um artífice que construiu um gibão imaginário para proteger as minhas fraquezas contra os sabidos que se acreditam eternos e poderosos.
Simpatia não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como um menino em parque de diversões. A vida é. Não se idealiza, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos. Agora, neste platô, com escarpas ao redor, não deixei de amar, mas o ceticismo me acompanha. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras.
Os embusteiros são como pacotes bem produzidos. Os laços que os adornam são cegos e só com o tempo, quando desfeitos, aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter escondidos na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e não é nada. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia.
Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje não sei mais nada. Sei apenas que este foi um ano difícil para o país lúdico do futebol e para o país real que enfrenta uma tormenta que não se sabe quando e nem quando vai parar. Alegro-me, por outro lado, em saber que os Estados Unidos e Cuba vão reatar relações, depois de cinco décadas. Dizem que este século vai mudar o mundo, como todos os outros acreditam que o fizeram.
Descobri que há um velho sociólogo e escritor judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida”. Conheci-o por Marcos Flamínio Peres, doutor em teoria literária e literatura, que o entrevistou em 2012. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, nos faz perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos.
Bauman escreve livros, tais como “O amor líquido”,” A vida líquida” e o “Medo Líquido”. Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’ “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Feliz Natal!
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2014.

