“Não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite do Ano Novo está tão ocupado”. Clarice Lispector
Não há quem fuja do lugar comum. É época de pensar e até de fazer conjeturas. De parar e ficar refletindo no que fez e, principalmente, deixou de fazer. Por mais que estejamos alegres, tristes ou absorvidos com problemas, chega um instante em que paramos, pensamos e nos perguntamos: e aí o que ficou de positivo nisso tudo? Você imagina que vai tentar fazer a coisa certa, errar menos que nos anos anteriores, será tolerante, mandará as fofocas para aquele lugar, cuidará da saúde, estimulará o corpo, mas fica sempre algo no ar.
A memória revive tudo com facilidade e isso, às vezes, incomoda. Neste período, o nosso viver diário dá o tom da música interior. E essa música, com certeza, tem compasso lento, como se fora uma daquelas valsas de Strauss que a maioria conhece, mas não recorda o nome. A evocação das músicas não se constitui saudosismo; é como se precisássemos de refrigério para as lutas diárias que se assemelham a um “rap”.
Você, eu, os que não confessam e os que não sabem, estamos todos tontos diante de um mundo que mudou sem nos pedir licença e foi ficando conturbado com guerras por religião em pleno século 21 e o duro e ainda longo fim das guerrilhas da Asfarc, na Colômbia, o jeito meio atravessado de Vladimir Putin pensar na grande mãe Rússia ao olhar para o ocidente e a crise econômica mundial em onda que pode ser igual ou pior que a de 2008.
Por outro lado, alegra-nos saber que os Estados Unidos e Cuba reataram relações diplomáticas após 53 anos de apartação. Esse tempo fez do estado da Flórida a maior concentração de cubanos fora do Estado-Ilha que fica a apenas 150 km de Key West, na extremidade americana, quase caribenha. Foi um argentino, o Papa Francisco, quem costurou o acordo que já não fazia mais sentido desde que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, apoiadora de Cuba, deixou de existir faz tempo.
Falta-nos, quem sabe, balizamento, descortino e sabedoria. Respondemos pessoas e países, muitas vezes, pelo que não fizemos. Dizem os filósofos que o medo e a esperança andam juntos. O difícil é a luta que travamos a todo o momento contra pessoas e instituições insidiosas. Assim, a vida é uma gangorra.
Gente importante como o ex-primeiro ministro da Inglaterra, Tony Blair, revelou em livro de memória que tomava uísque puro, gim tônica e vinho para aguentar o rojão do trabalho. O ex-presidente Lula lança, neste fim do ano, um vídeo sobre a sua versão do que acontece agora no Brasil. Nada de novo sobre o já sabido, visto e vivido.
O filme “A Entrevista”, com relato sobre um possível atentado ao dirigente maior da Coreia do Norte, kim …., causou um ataque de “hackers” à Sony Pictures. A exibição do filme foi cancelada sob um rastro de medo das maiores empresas exibidoras cinematográficas americanas. Barack Obama diz que vai dar um troco proporcional ao fato. O que isso significa?
Aqui na nossa pátria amada tem nos afetado o despudor da corrupção que atingiu a maior empresa de petróleo da América Latina e, segundo sugere a operação Lava-Jato parece haver ramificações não só com ela, mas em muitas outras obras públicas federais, estaduais e até municipais. Em fevereiro não haverá só carnaval, mas outra onda de nomes envolvidos.
No Brasil somos otimistas por natureza e destino. A presidente reeleita, Dilma Rousseff, afirmou, depois das eleições, “eu acho que tem hora que exageram um pouco comigo… mas eu sou uma pessoa que convive perfeitamente com a crítica”. Assim, estamos findando um ano e entrando em 2015 desejando a ela um bom governo, acreditando que todo brasileiro, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, ao brindar em festas, lugares públicos ou em suas casas esteja prontos para o trabalho que recomeça na próxima semana. Feliz Brasil Novo.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2014.

