Nas primeiras viagens ao Rio, eu precisava ver teatro. Essa percepção foi passada a universitários que tiveram a oportunidade de conhecer Pascoal de Carlos Magno, ator, teatrólogo, diplomata e agitador cultural, quando da vinda da “Caravana da Cultura” a Fortaleza. Pascoal queria descobrir novos talentos e ajudar na formação de público que o ouvia no velho teatro do Benfica, que hoje leva o seu nome.
Trouxera, entre outros, Cacilda Becker, a grande atriz. Aqui, além de se apresentar, ela debateu conosco, jovens abertos para o que não sabiam. Cacilda era, então, mulher de Walmor Chagas. Pascoal e Cacilda nos afirmaram ser preciso ver teatro para entender a vida. Foi o que tentei ao assistir My Fair Lady e Hair. Depois, vi Paulo Autran, Procópio e Bibi, Sérgio Brito, Chico Anysio, Fernanda Montenegro, Eva Tudor, Tonia Carrerro e outros. Na Broadway, vi musicais ricos, bem montados, mas alguns são pernósticos.
Ao final de 2012, Fernanda Montenegro, que viveu 60 anos com o ator Fernando Torres, falou da dor de ver a sua geração morrer e declarou: “O mais difícil é saber que você está na fase conclusiva da vida. É melhor encarar”. Relembro agora, faz anos. Estava a conversar com Arialdo Pinho, o pai, ao fim de uma peça, no Centro de Convenções. O papo demorou. Ia abrindo o carro quando Walmor – ele era o ator da peça – me aborda: pode me dar uma carona? Daí, fomos jantar e ele me falou, entre doses de bebida, da grande perda de Cacilda e, já então, da solidão do ator, fora dos refletores. Agora, leio que ele, ao fechar a cena extrema, provou que o isolamento e a velhice não distinguem pessoas.
João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2013

