Até bem pouco tempo não havia baladas. Havia perigo, mas a cidade nos entranhava. Não nos estranhava. Havia festa e bebidas, mas ninguém nos obrigava a beber. Maconha era a pior droga. Os que a fumavam eram “rabos de burro”, só cresciam para baixo. Hoje, as baladas aturdidas principiam nas horas em que os pais estão a dormir. Pode parece estranho, mas vivemos em outro orbe. Este cobra a muleta do aditivo, seja álcool, cheiro, injeção, fumo ou cachimbo. Ele pede a exposição colorida da tatuagem no corpo ou piercings na face. Quem não entra na roda é careta. Sofre o “bullying” pelo qual quase todos passamos, mas não sofríamos porque sequer havia sido avaliado.
Agora, há danos em tudo, há sequelas em filhos que os pais cometem por amor, falta de saber e não existir cursos para pais. Somos todos aprendizes da vida em comum a produzir amor, união, ódio, indiferença ou descaso. Os jovens querem e devem ser livres para crescer e aprender. São resolutos e alguns entram em baladas de fogo sem limites para nada. Esta introdução é apenas para dizer que estou, como todos, abalado com as 234 mortes. Até agora.
A propósito, li uma bela crônica, escrita por quem viveu em Santa Maria, RS. O jornalista Marcello Canellas, seu autor, a conclui assim: “Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto, Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2013.

