LINCOLN – O filme e a Virtude JORNAL O ESTADO

A história ou estória sempre é contada pelos vencedores. Os derrotados estão mortos, desaparecidos ou não têm espaço para contá-la. Vi o festejado filme “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, a partir de poucos capítulos do livro “Team of Rivals – The Political Genius of Abraham Lincoln, algo como Jogo de Rivais – A Genial política de Abraham Lincoln”.
Spielberg está rico se dá ao luxo de bem escolher e dirigir. Ele desejava se acostar a D.W. Grifith(Abraham Lincoln) e a John Ford com (A Mocidade de Lincoln), grandes diretores e recriadores, cada um a seu jeito, de vários aspectos da vida do menino pobre até a sua chegada à presidência, mas assassinado no começo do segundo mandato.
O Lincoln de Spielberg não conta a história de sua vida de 56 anos (1809-65). É apenas um breve recorte da sua atuação como estadista. Este “Lincoln” mostra, repito, um viés pouco notado na sua biografia. Abraham, como o profeta onomástico, guerreia para unir os americanos. A história é um intricado jogo de interesses entre os partidos Republicano ( o de Lincoln) e os Democratas, visando a aprovação da 13a. emenda à Constituição americana. Lincoln queria – e conseguiu – a abolição da escravatura e precisava jogar pesado para obter votos adversários na Câmara de Representantes. Assim, na verdade, houve distribuição de dinheiro e de cargos para os resistentes aos argumentos de Lincoln. Ao final, cederam. Tudo isso é mostrado, mas encoberto pela virtude/moral/ética calvinista: A pátria acima de tudo.
Esse filme receberá prêmios e poderia ser visto por todos. Especialmente, jornalistas, políticos, advogados, cientistas políticos, magistrados, inclusive os membros do Supremo Tribunal Federal e, certamente, pelos apenados do 1º. mensalão.
Houve uma manobra abjeta, mas ela tinha um objetivo nobre. A pergunta filosófica é: Os fins justificam os meios?. J.B. Butler, filósofo inglês do século 18 deve ter sido lido por Lincoln. Ele assevera: “A virtude, enquanto tal, considera consideráveis vantagens aos virtuosos”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2013.

Sem categoria