Na manhã de sexta-feira passada, dia 07 de junho de 2013, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras, sob a presidência de José Augusto Bezerra e a coordenação de Ubiratan Aguiar, conseguiu feito inédito. Ali estiveram presentes: o Senador Inácio Arruda; o coordenador da bancada federal, Antonio Balhmann; e os deputados Gorete Pereira, Ariosto Holanda, Artur Bruno, Chico Lopes, João Ananias, Raimundo Gomes de Matos e Vicente Arruda. O Dep. Danilo Forte mandou representante.
As motivações do encontro foram:
1º- o estado crítico em que se encontra a estrutura física do tricentenário prédio, já objeto de projeto, elaborado em 2009;
2º- a necessidade da Academia dispor de recursos tecnológicos para se tornar um ente cultural ajustado às demandas atuais da sociedade;
3º- a implantação de sistema de segurança para a proteção do acervo, demobiliário adequado, climatização esonorização da sede;
4º- implementação de projeto sistêmico para a criação–contando coma participação do Dep. Ariosto Holanda e do ocupante da Cadeira 35 – de um Centro Vocacional Cultural-CVC que, após implantado, poderá ser irradiado para todo o Ceará.
Os parlamentares, acompanhados dos já citados acadêmicos, de Ângela Gutierrez, de Ednilo Soárez e da diretora administrativa Regina Fiúza, visitaram todas as dependências dos dois pavimentos da Casa constatando o estado de penúria do auditório, da biblioteca, da pinacoteca e de todosos demais cômodos, com problemas de natureza estrutural.
O Palácio da Luz é um bem público, tombado como patrimônio histórico do Ceará, mas está, é preciso repetir, em situação crítica de segurança. Nele, além da Academia Cearense de Letras, reúnem-se, sistematicamente, mais de 15 entidades culturais, entre elas a Academia Fortalezense de Letras. Aventou-se a necessidade de criação, no centro da cidade, de um eixo cultural que contemple o perímetro da área que abriga equipamentos culturais, afora o Palácio da Luz, como o Instituto do Ceará, o Theatro José de Alencar, a Igreja do Rosário, a Igreja do Patrocínio, a casa de Juvenal Galeno, o Parque da Criança, o antigo Rotissérie, o Museu do Ceará, entre outros.
Depois, encaminharam-se ao banco onde repousa a escultura em bronze de Rachel de Queiroz, na vizinha Praça General Tibúrcio, também conhecida como Praça dos Leões em razão das esculturas desses animais que encimam os seus pórticos, antes tidos como monumentais.
A visita à Praça General Tibúrcio fez-se necessária em face da insegurança constatada. Em todos os seus quadrantes estão quiosques, ambulantes, vendedores de livros, famílias de pedintes e pessoas sem teto que se apropriaram daquele espaço público. Emborafosse manhã, o olor de excrementosse fazia sentir a cada passo. Os parlamentares ficaram, nas palavras deles próprios, estarrecidos com o “status quo” e se prontificaram a transmitir o que viram a seus demais pares.
Este relato, cru e fidedigno, parece uma constatação arquitetônica pontual. Embora não importe, é bom lembrar o escritor F.Scott Fitzgerald: “a literatura é arquitetura. Ela não é decoração de interiores”. A casa da literatura cearense reclama por cuidados de vera arquitetura, não é o caso de decoração de interiores
Estivemos, pois, a mostrar as faces sujas e fissuradas de um velho prédio construído com mão de obra nativa e indígena, ainda do final do século 18, pelo Capitão-Mor Antonio de Castro Viana. Em 29 de setembro de1802 o prédio foi arrematado para ser a sede da Câmara. Entretanto, não havia verba para o pagamento. Assim foi criado o “Subsídio das Aguardentes”, que determinava o pagamento de 4$000 por cada pipa de aguardente importada que desembarcasse em portos da província. A quitação do pagamento, feito dessa forma, só foi concluída em 03 de novembro de 1807. Em 1808, o então Governador Luiz Barba Alardo de Menezes, sob o argumento de que sua casa havia sido furtada, mudou-se para o local. Embora houvesse resistência da Câmara, passou a ser a sede do governo até 1970. A nova sede do Governo, o Palácio da Abolição, foi inaugurada em 04 de julho de 1970.
Mesmo aligeirado, este relato mostra a necessidade de recuperar, para preservar o que a História do Ceará nos legou. Não podemos deixar que essas conquistas sejam relegadas a um plano subalterno. Os jovens do novo milênio precisam de referências histórico-culturais para construir as fundações dos seus conhecimentos. Sem essas referências a juventude será tão oca como parte das conversas narcísicas trocadas a cada dia no Facebook e outras mídias.
O Palácio da Luz é do Ceará, todos os acadêmicos são transitórios e bem letíficos. Só a Academia Cearense de Letras, sua cessionária, é permanente.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/06/2013.

