AFINAL, O QUE ESTAMOS VENDO E VIVENDO? – Jornal O Estado

Os cientistas sociais, a imprensa, o governo com os seus órgãos de segurança/informação e a política brasileira foram abalados em seus alicerces. Como não prever o que aconteceu e vai continuar a existir nesta nova onda de protestos que, mesmo sem querer, parece ter sido atiçado em mínima parte, por uma inventiva propaganda de uma marca de veículos?
Essa propaganda objetivava a simples venda de veículos e clamava a todos: vão para a rua. Comprar carros e ir para a via limpa, bonita, asfaltada, sinalizada, segura e desfrutar da liberdade de pagar um carro, com juros, por longos anos. Essa é a quimera. A realidade, outra.
Um cartaz de manifestante fez o contraponto a essa falsa ilusão consumista de todas as classes sociais. Seu texto: “País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público”. E, um detalhe, nele não se falou sequer nas motocicletas, vendidas em longo prazo. Tão longo que boa parte dos seus guiadores é acidentada, antes mesmo de concluir os pagamentos, nos trânsitos caóticos de nossas cidades.
A empáfia das elites, da política brasileira e das propagandas que desejam vender tudo a qualquer preço, contavam – espalhavam – que o Brasil vivia o melhor dos mundos. Nada nos atingiria. As crises do mundo, não nos diziam respeito. Todos os brasileiros teriam acesso a tudo. De tanto comparar a propaganda massificada com a realidade, o povo cansou.
Depois da casa, móveis financiados – para minorar a crise da indústria moveleira. Tudo bem. Mas como e com que pagar as prestações da casa, dos móveis, da moto/carro, a alimentação e a conta da luz. A inadimplência aumentou.
Não há essa elevação tão explícita da pobreza a uma nova classe média. Há uma falsa ideia do seja a nova classe média. Há um mimetismo a partir de roupas, sapatos e adereços falsificados vendidos por camelôs em vias públicas de todo o país. Tudo espelhado em novelas mirabolantes com escancarado “merchandising” de tudo o que possa, subliminarmente, influir no desejo humano.
Seguindo os cânones mundiais, a caracterização político-econômica do perfil da nova classe média brasileira é um factóide, uma quimera, uma manobra. E quem foi para as ruas, de início, não foi essa ainda dita classe emergente, mas a velha classe média – a imprensada entre o desejo e a capacidade – que se sentiu lograda em todas as suas pretensões. As famílias de classe média têm, entre outros poucos objetivos, formar e encaminhar os seus filhos na vida.
Hoje, há cerca de sete milhões de universitários no Brasil. Alguns estudam em poucas universidades públicas e privadas de bom e razoável nível de excelência. A maioria se compraz a cursar sofríveis e medíocres faculdades para ser dono de qualquer graduação. Puro auto-engano. Todos os anos a sociedade lança profissionais que não são absorvidos por suas baixas qualificações. Há tantas profissões e oportunidades e poucos conseguem um emprego privado razoável. O Brasil produtivo precisa de gente qualificada e não há.
Por outro lado, faz certo tempo que se criou uma nova esperança nas famílias: a de ter seus filhos aprovados em concursos públicos. O emprego público gera uma suposta garantia de segurança para o futuro. São poucos os que passam. Os demais mandam currículos para empresas de recrutamento ou, através de amigos/parentes/políticos, tentam ocupação ou atividades terceirizadas por órgãos públicos para os quais não têm, em bom número, disposição de trabalho e as aptidões básicas necessárias.
Essa massa de jovens, sem esperança, quando não delinque, inferniza seus pais com demandas provocadas por uma sociedade de consumo em que a falsa aparência no vestir disfarça a ausência de conteúdo e equilíbrio para enfrentar a realidade.
Não estou dizendo que os milhões que foram às ruas são pessoas assim, mas certamente são os que se sentiram enganados por promessas de um país já quase rico e em que todos teriam oportunidades iguais. Não é a verdade. Só os preparados alcançam algum “sucesso”, essa falsa palavra que não traduz a verdade da vida.
Esse caldo, esse ressentimento coletivo, oriundo da maciça divulgação pela imprensa de desvios, desmandos, impunidades e dos exagerados gastos e cuidados com os preparativos de eventos esportivos, forjaram o estopim deste junho em que estádios novos, por conta dos altos preços cobrados, estavam repletos de gente das classes alta e média, convidados de empresas, governos e instituições, turistas, jornalistas, artistas e pouca gente do povo. Pobres, nem pensar. Sequer como vendedores ambulantes. E o futebol se diz esporte popular.
Nos entornos dos estádios havia mais gente que dentro das “arenas”. Eles intuíram que muita coisa estava errada, pelo aparato policial ostensivo. Ainda não existia sabedoria sedimentada para expressar, com clareza, esses muitos desacertos reclamados. Aconteceu o caos, gente séria, baderneiros e os infiltrados de sempre.
Agora, há uma infinidade de explicações da mídia, de articulistas e de cientistas políticos após as passeatas inovadoras, permeadas por vandalismos de marginais que capitalizam as aglomerações para os seus delitos.
As explicações, inclusive esta minha, são apenas sentimentos, esboços ou exteriorizações sociológicas que não resolvem essa questão ou o impasse em que o Brasil se meteu, depois de tanta orgia com o dinheiro público.
Agora, depois da fala da presidente Dilma e dos ajuizamentos contundentes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, é hora de repensar, estudar e esperar que o nosso país pare de propagar o que não é possível fazer ou ser. Que cuide, pelo menos, de fazer o mínimo que a sociedade cobra. Nada de grandeza. Chega de fanfarra. Os políticos, de todos os matizes estão cautelosos, conjeturando e digerindo a crise. E você?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/06/2013.

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