O Brasil está rediscutindo tudo. Não me refiro apenas às manifestações em curso, mas à cultura que hoje se faz no País. Gilberto Gil, em plena Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip-2013, falou sobre a conquista da Copa das Confederações: “O lugar para onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha matiz racial brasileira, era esbranquiçada”.
Elementar, meu caro Gil. Pense nos preços dos ingressos. Ora, dizer isso em Paraty, cidade histórica fluminense, entre o Rio e São Paulo, em encontro rico, na primeira semana deste julho, sob o clima ameno do inverno, financiado por banco e em evidente empobrecimento…
Parte dos convidados não compareceu e faltou até tema para discussão. Improvisaram com a indignação dos jovens. Será que Gil foi para lá de graça? Não sei. Já fui à Flip e talvez não vote. Nada de especial, tendas, os “bichos grilos” de sempre, cariocas e paulistas “descolados” e artistas de moletons, todos rindo nas fotos, conversa fiada, editoras faturando e até um pouco de cultura, em suas várias formas.
Vai daí que a Flip provocou, no ano passado, a criação de uma sucursal nas favelas (lembram da Daslu e da Daspu?) do Rio. Pois bem, neste 2013, a Festa Literária das UPP- a FLUPP das favelas pacificadas pela polícia aconteceu nesta semana, na Penha, zona norte, quando autores estrangeiros vindos da Flip debateram, de graça, com o povo e até com intelectuais de vários matizes. Não soube de Gil por lá. Teria a oportunidade de trocar a verba pelo verbo, em área violenta e pobre, ainda em batalha e sem polícia pacificadora.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/07/2013

