Ele, solteiro, 78 anos, um só pulmão, fim da carreira. De repente, é escolhido chefe supremo da multinacional fundada há dois milênios. Ela, já casou e batizou em todo o mundo, fez cruzadas, mandava em reis, príncipes e vassalos. Tem dogmas e uma estrutura pesada. O prestígio diminuiu nos últimos tempos. Vive da fé, da esperança e da caridade. Seu “core business” é a transcendência. Anuncia, sem provas, um espaço celeste, após a morte.
Ele agora reage a burocracia complexa acusada de corrupção, pedofilia, pompa e apegada ao manejo continuado do sistema. A sede é uma cidade-estado rica, vigiada por guarda anacrônica, vizinha a uma capital dissoluta, em política e prostituição.
Esse chefe está agora no Brasil e, para a sua vinda, foram gastos 350 milhões de reais:
1. Um grande cenário, com palco central – talvez o maior do mundo em aparato tecnológico “hi-tech”, som e imagem.
2. Hospedarias, igrejas, palácios e casas foram adaptados;
3. Fizeram terraplenagens, pavimentações, iluminações e aparatos em seu trajeto;
4. Milhares de seguranças estão tontos para coibir problemas;
5. Jovens do mundo apenas querem vê-lo, tocá-lo e ouvi-lo.
Ele já se expôs, pois acredita na bondade humana e espera contribuir para a juventude ser direcionada ao bem comum. Fui vê-lo em março. Manhã de domingo, ramos para todos, 200 mil pessoas. Não houve transtorno. Tal como aqui, transgrediu, desceu ao chão e afagou velhos, doentes e crianças. Telões o reproduziam. Neste domingo, fala de desapego, fé e perspectiva e já vai indo. Deixa marcas e exemplos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/07/2013.

