Nasceu em 1964 um destruidor de livrarias, Jeff Bezos. Formado em uma das melhores universidades americanas, a Princeton, ele criou a ledora eletrônicos de livros “Kindle” e a livraria/editora virtual “Amazon”. Cunhou a dicotomia, nunca antes imaginada, entre “livros físicos” e “livros virtuais”. Enriqueceu vendendo livros pela Internet. Em decorrência disso, várias livrarias de pequeno, médio e até de grande porte, fecharam.
É casado com a escritora MacKenzie Bezos, com quem troca ideias sobre livros que leem. Bezos, aos 49 anos, comprou nesta semana um dos maiores e mais antigos jornais dos Estados Unidos, o centenário Washington Post, por meros 250 milhões de dólares. Lembro que esse jornal foi o causador, em 1972, da posterior renúncia de Richard Nixon no famoso caso “Watergate”, de espionagem telefônica pelo Partido Republicano contra os Democratas, com conhecimento do presidente.
Esse jornal chegou a ser cotado em mais de quatro vezes o valor de compra atual. Um consultor financeiro, Allen Weiner, afirmou que a sua compra “foi um ativo subvalorizado”. Jornal de verdade, físico e impresso, possui engrenagem cara e complicada e depende, entre outros, de sede, energia, dinamismo pulsante, linha editorial, parque gráfico, equipe de redatores e correspondentes, anúncios, credibilidade, distribuição eficaz etc.
O colunista James Fallows, amigo da família Graham, ex-proprietária do Washington Post, disse – segundo Raul Lores –que jornalismo sério “é quase inviável como negócio, por ser muito caro”. Discordo. O mundo está de ponta cabeça. Talvez agora seja o tempo dos jornais sérios, aqueles que não traem os leitores e não temem o poder. Por outro lado, a “Amazon” faturou mais de 60 bilhões em 2012 e gasta dinheiro com lobistas, profissão regulamentada lá nos Estados Unidos. Há, todavia, um dado importante a favor de Jeff Bezos: ele não doou nenhum dólar na última eleição presidencial americana. Tudo isso pesará na análise que se venha a fazer no futuro das empresas “Post” que ainda incluem na compra uma estação de televisão e uma revista.
É esperar para ver. Com certeza virão novidades que poderão até mudar o conceito que hoje se faz de jornal. A imprensa, na visão “gutenberguiana”, dependia de uma “prensa”. Hoje quase tudo é feito de forma eletrônica. Jornalistas e colunistas podem ou não ir às redações, pois enviam suas matérias pela internet, tal como ora o faço. Hoje há muitas mídias e a prensa se transformou em pressa, na instantaneidade da informação. Take care, Mr. Bezos.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/08/2013.

