A Lagoa de Messejana, onde, conta a lenda, Iracema, a virgem indígena, amor dorido e mulher de Martins Soares Moreno, o guerreiro branco, era o lugar de descanso das suas míticas viagens desde a Serra Grande. Seu criador, José de Alencar, nascera no Sítio Alagadiço Novo, casa de seu pai José Martiniano de Alencar, não muito longe da lagoa ovalada. Pois foi nessa licença poética que é a lagoa, que D. Maria Lúcia Rocha Dummar criou o seu refúgio, em casa simples, mas senhorial, cercada de árvores que lhe davam sombra e frutos.
No fim da década de cinquenta e começo dos sessenta a lagoa, circundando casarões e sítios era, não nas noites de plenilúnio, um breu. As famílias circundantes usavam geradores próprios de energia para alumiá-las.
A amizade de meu, pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então Secretário de Serviços Urbanos, com a família Dummar era antiga e consolidada. Por justiça, fez-se luz em toda a região e, especialmente, na Granja Castelo, mansão de muitas varandas de grandes mesas de madeiras maciças com toalhas de renda da terra.
A frente leste justafluvial, protegida por árvores centenárias, flores silvestres e aves canoras, resplandeceu em cores amareladas com o então fulgor das lâmpadas flúor e incandescentes. Dona Lúcia, a única agradecida, recebeu meu pai e Margarida, minha mãe, e aí foram a Canindé em pagamento de promessas católicas.
Desde então, sinto-me amigo dessa mulher que esta semana se foi ao Éden, ao Céu de sua extrema fé, depois de cumprir vida profícua de mãe exemplar, mulher afeita a rezas com oratório, memorial e gruta próprias, amizades firmes, anfitriã com largueza, hospitalidade e benquerença.
Seus filhos, Demócrito e João, as filhas Lúcia Maria, Lúcia Helena, Carmen Lúcia e Albaniza, herdaram de D. Lúcia uma canoridade singular. Quando, em missa na noite de quarta, 18 de setembro deste 2013, no velório de D. Lúcia, coube a João Dummar Filho, no seu ofício de filho, cantor e poeta, cantar, à capela, em oração e poetar, para uma nave em silêncio, relembrando fatos e alegrando-se pela longevidade e benemerência de sua mãe, D. Maria Lúcia, filha e mãe de Demócritos, ambos jornalistas e Rocha, mas aos filhos acrescentou-se o Dummar, por João, o pai de todos, precursor da radiofonia cearense e cidadão que deixou história por suas vitórias e morte prematura.
O poeta latino Horácio dizia algo como: “E assim, raramente, se encontra alguém que diga ter vivido/ como pessoa feliz e, tendo completado o tempo que lhe foi concedido, deixa a vida satisfeito, como um conviva saciado”. D. Lúcia teve dores – e muitas – mas soube, depois de bem educar os seus filhos, acolher netos e bisnetos, receber amigos, viver e completar os noventa e seis anos que lhe foram dados pelo Criador, de forma humanitária, cordata, comunicativa, participando, como conselheira, das empresas da família, sempre acolhedora e vivaz.
Queria ter todos os descendentes sob o luar que argentava a sua lagoa, os amigos reunidos em suas tardes de oração e a mesa sempre farta, desde as manhãs de cada dia. Agora, os que ficaram, terão uma intercessora verdadeira.
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/09/2013.

