“Às vezes fico pensando que a Aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano. Sei que é um pouco de loucura pensar nisso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido”. Cazuza, cantor brasileiro.
Cazuza morreu de Aids, aos 32 anos, em 07 de julho de 1990.
Segundo os médicos Caio Rosenthal, infectologista, e Mário Scheffer, medicina preventiva, em artigo em 01.12.2013, na Folha, 30 pessoas morrem de Aids e 100 novos casos são registrados no Brasil, a cada dia. Repito, a cada dia. Há algum tempo o Brasil foi considerado exemplo para o mundo na prevenção e tratamento do HIV, mas houve um relaxamento de todos, pacientes, médicos e dos governos. A ideia de transferência do tratamento dos infectados para as unidades básicas de saúde foi um erro, afirmam os dois citados médicos.
Este artigo não pretende causar pânico, mas não acho certo saber e não alertar os que continuam a fazer sexo de forma indiscriminada sem o uso regular de preservativos. A “camisinha” não pode ser considerada careta. Ela é defesa para os que se aventuram na promiscuidade e os que, mesmo não promíscuos, têm parceiros fora das suas relações. Para Rosenthal e Scheffer o problema é grave: “No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada novo caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável. Erráticos, os dados oficiais apostaram que a Aids avançaria em direção aos heterossexuais, às pessoas de baixa renda e ao interior do país. Concentrada nas áreas urbanas, a verdade é que a epidemia ressurge com força total entre os homossexuais e outras populações negligenciadas”.
Exageros à parte, há uma postura nacional, embora contestada por alguns, de combate à doença e de apoio integral ao paciente. Deu certo, mas precisa continuar, sem descuidos e ambiguidades.
Desse modo, fica o alerta a todos os que, além dos governos, possam ajudar nessa cruzada que, em 1º de dezembro, teve seu Dia Nacional de Combate à Aids, sem a cobertura devida da imprensa, ocupada em relatar o acidente no estádio do Corinthians, em São Paulo, e ouvir as desculpas do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, um “desaposentado” e controvertido ancião que sequer respeitou os mortos ao asseverar que nada impedirá que a abertura da Copa seja naquele estádio, ainda em construção.
Hipócrates, o médico grego, nascido 460 anos antes de Cristo, tornado patrono da classe esculápia, já dizia: “Para males extremos, extremos remédios, levados ao máximo rigor, são os mais válidos”. O médico Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, bem que poderia meditar sobre críticas às medidas preventivas, ainda censuradas por igrejas e seitas. Não há prodígio para a Aids. Só os antivirais adequados, iniciados logo depois do diagnóstico, são as respostas adequadas para que os pacientes possam conviver com a doença. A cura está próxima, já há vacina em teste. Enquanto isso, todos precisam de cuidados. E, se infectados, correr para a busca de socorro médico e dos retrovirais disponíveis no Brasil. Cuidar-se é viver.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/12/2013

