PLATITUDES – Diário do Nordeste

Natal e fim de ano são tempos de platitudes. Se você não sabe o que é platitude, fique tranquilo. Já vai entender. Quando você recebe e-mails dizendo o óbvio, repetindo o de sempre, estamos diante de uma platitude. Quando alguém manda um cartão de natal sem assinar ou, ainda, quando a assinatura já é impressa, é quase certeza que vem platitude no texto, com redundâncias e afagos que não fazem muito sentido para quem os recebe. Algumas vezes, o remetente sequer tem afinidade conosco.
Agora, neste dezembrão sem fim, ouvi uma prédica que me deixou feliz. Em confraternização acadêmica, o Mons. Manfredo Tomás Ramos, agostiniano profundo, falou com a simplicidade de seu mentor. Santo Agostinho nasceu no século IV e, até hoje, 17 séculos depois, é contemporâneo e serve como antídoto às platitudes que recebemos pelo Correio, sempre atrasado; ou pelas tais mídias sociais que não pedem licença e invadem a nossa profanada quietude. Ela se esvaiu quando passamos o primeiro e-mail.
Agostinho, em A Trindade, X,10,14, nos faz pensar. Preste atenção: “Quem pode duvidar de viver, de lembrar, de compreender, de querer, de pensar, de saber, de julgar? Mesmo se duvida, vive; se duvida, lembra de onde nasce sua dúvida; se duvida, quer chegar à certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, julga não dever concordar irrefletidamente. Portanto, quem duvida de outras coisas, não deve duvidar destas, pois se não existissem, não poderia mais duvidar de nada”.
Pensando melhor, que venham, então, as platitudes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2013

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