Ficção: Estamos em 4013, há sistemas de regulação full-nano-ultra nos bólidos, co-propriedades, e nas bibliotecas virtuais. Curioso, Ching, o anti-estro, resolve pesquisar o acontecido há dois mil anos. Insere perguntas, realimenta dispositivos que, de há muito, dizimaram o Google. Não há registros sobre 2013. Inexiste o Brasil. Encontra uma mínima referência a uma belicosa República Bolivariana, nas ex-Américas do sul e central. Ching desliga.
Hoje, dezembro de 2013: Intrigo-me com um novo livro: ”Não houve Jesus. Deus não Existe”, de Raphael Lataster. Ora, Jesus não nasceu em lugarejo da Palestina? Se fora hoje, precisaria do Bolsa-Família. Os Romanos geriam o mundo.Nada foi escrito sobre Jesus. Tudo surgiu após a sua morte, se viveu, como creem os três bilhões de cristãos espalhados pela Terra. O cristianismo, há dois milênios, prega santidade, mas perpetrou atrocidades, cruzadas, cismas; teve papas dissolutos, pastores empoderados e crimes financeiros. Apesar disso tudo, Jesus vive no coração dos que a Ele recorrem.
Hélio Schwartsman, filósofo/articulista da Folha, pondera: “Segundo o autor (Lataster), um mínimo de rigor historiográfico exigiria, se não concluir que nunca houve Jesus, pelo menos deixar de afirmar que sua existência histórica foi confirmada”. Ora, a fé cristã ensina: para ver a face de Deus é preciso morrer. Assim, a racionalidade perde forças. 2013 sequer é lembrado na ficção 4013. Enquanto isso, os evangelhos, pós Jesus, narram o que a oralidade preservou. Deus, Jesus, e a fé são forças, apesar de tudo. E então?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/12/2013

