Muito se discute sobre a diferença entre artigo e crônica. Poderia falar, sem pretensões, que o artigo é mais sisudo, não comporta digressões e tem o objetivo de expressar a opinião do seu autor, seja jornalista ou não. Ou ter uma destinação científica ou acadêmica quando escrito por cientistas ou acadêmicos e veiculado em periódicos de universidades ou academias. A crônica é algo mais sutil. Mesmo quando escrita em jornal. É bom lembrar que Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Moreira Campos e Rachel de Queiroz, para ficar nos que não estão mais conosco, escreveram em jornais e sabiam da efemeridade e do difícil que é escrever para um público que deseja, de princípio, apenas saber notícias do dia. A crônica, como se vê, é lida de quebra, não é o principal produto das páginas impressas de um jornal. Como esta que estou escrevendo que está em um suplemento social, repleto de boas fotos, do jornal O Estado.
Li agora, neste janeiro de 2012, o jornal – ou seria um encarte? – “Pernambuco”, suplemento da revista “Continente” que mostra uma bela entrevista feita por Schneider Carpeggianni com o romancista e cronista mineiro Ivan Ângelo. A entrevista é sobre crônica, mas se indaga, de principio, qual a razão dele, autor premiado e festejado ter deixado, de lado, os romances. Ivan, penso eu, acredita que os romances de hoje, especialmente os best sellers, são feitos sem o grau de exigência necessário. De minha parte, concordo. Dou um exemplo: ganhei de presente um desses romances que passou meses como um dos mais vendidos no Brasil. Tentei ler o dito cujo. Não consegui. Voltei a encarar e acabei desistindo. Pode ser preconceito meu ou sei lá o que, mas “A Cabana” não fez jus às recomendações dadas pelo livreiro que o vendeu a quem me presenteou, com boas intenções.
Voltemos, então, à crônica. Ivan diz como produz uma crônica: “Eu trabalho a crônica com bastante abertura. Não é o assunto ou a quantidade de realidade que ponho nela que a torna uma crônica.” E continua: “Crônica não é um formato, como o soneto, um dos formatos do poema. Algumas das minhas crônicas, ou algumas crônicas, de um modo geral, são dissertações, outras são poema em prosa, outras são pequenos contos, ficções, outras são evocações, memórias, reflexões, recortes do cotidiano”.
E explica como seleciona crônicas escritas em jornal que, depois, resolve enfeixar em livro. Diz ele: “meu editor e eu procuramos montar a seleção de crônicas que compõem o livro ‘Certos Homens’ usando o critério da proximidade de assunto que um texto poderia ter com outro.”
Ao final, Ivan Angelo recomenda duas crônicas. Anúncio de João Alves, de Carlos Drummond de Andrade, e Partilha, de Rubem Braga. Valem a pena.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/01/2012

