O caderno “Ilustríssima” da Folha, de 05 de fevereiro de 2012, contém o ensaio/crítica “O Erro de Machado”, do renomado Paulo Roberto Pires, crítico literário, professor da UFRJ, debatedor e autor de antologias, acerca das previsões do jovem – e futuro grande escritor – Machado de Assis sobre o fim do livro. Acreditava Machado, em seu “O jornal e o Livro”, de 1859, escrito quando tinha apenas 19 anos, que o livro iria acabar. Empolgado estava com a sua profissão de revisor – conseguida com a ajuda de Manuel Antônio de Almeida – no jornal Correio Mercantil. Nesse mesmo jornal, desde 1854, o advogado, escritor e político consagrado José de Alencar tinha a coluna “Ao Correr da Pena”, enquanto Manuel Antônio de Almeida, médico e jornalista, era o responsável pelo suplemento “A Pacotilha”, onde escreveu, sob a forma de folhetim e, anonimamente, o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”.
Em uma parte do seu polêmico primeiro livro, Machado diz: “O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo econômico e do mundo social”. Machado imaginava que o livro iria perder a razão de existir: “O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras: Trabalha! Vive pela ideia e cumpre as leis da criação”.
Diz Paulo Roberto Pires: “Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas – moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.”
Agora, neste emergente século XXI, se prega, novamente, o fim do livro. Eu, por exemplo, ganhei de presente um I-Pad, esse instrumento portátil e gracioso inventado pela Microsoft na última contribuição de Steve Jobs à cibernética ou informática. Matada a empolgação e a curiosidade, o meu i-Pad ou tablet(tábua) se queda restrito, pois não vejo com prazer uma das suas funções, a de nos fazer ler livros não impressos. Quanta pretensão, essa que vem desde o fim do século passado.
Para quem gosta de ler, os que têm na cabeceira de sua cama uma luz de vigia com foco, uma rede ou uma velha cadeira, nada se compara ao prazer de comprar o livro, ler, virar a página e marcar trechos, com os quais concorda, discorda ou desconfia. O leitor verdadeiro pode até usar o I-Pad e que tais como instrumentos particulares de consulta dos novos dicionário/enciclopédia/conversação do mundo atual, o “Google” e o “Facebook” e outros, mas não há porque decretar o fim do livro como erroneamente pensou Machado de Assis, tal como se imaginava e dizia do fim do jornal quando da criação do rádio e do rádio quando da profusão da televisão. Depois, surgem o computador e, recentemente, essas múltiplas mídias que a geração Y, aquela nascida após 1979, teve à sua disposição desde sempre.
Os jornais sofreram, mas reinventaram-se, fragmentaram-se em cadernos temáticos para os seus vários públicos, postaram suas edições na Internet e criaram links com todas as mídias. Os livros impressos, de capa dura ou meras brochuras, feitos por grandes editoras ou editados por seus próprios autores, convivem bem com todos esses equipamentos, “gadgets”, invenções e congêneres. É bom não esquecer a pergunta – ainda atual – feita por Shakespeare, no século XVI, através do personagem Polônio, em Hamlet, “O que estais lendo, meu senhor”? Você é o que lê, não se engane.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/02/2012.

