A amiga Badida Campos, irmã de Techinha e filha do homem do fusca verde e do apartamento/biblioteca/relicário, escreve-me, como o faz desde sempre, dizendo da alegria em ter sido acolhida no poema “Saberes” do poeta pernambucano Alexandre Furtado. Nele, Furtado retrata, em versos livres, a história maurícia desde Duarte Coelho. Badida é pintora consagrada e tem a graça de, em muitos de seus quadros, incluir palavras que são saberes. Saber uma cidade não é apenas morar nela, tampouco contar estórias ou balelas por ouvir dizer. Saber é entranhar-se, misturar-se a todos, não apenas participar de confrarias que escolhe como grei para discorrer sobre pessoas ou fatos, sem conhecê-los na essência.
Saber uma cidade é procurar, antes de propagar necedade, obter informações corretas sobre o que vai escrever. A propagação do que não se sabe e é calúnia não se transforma em verdade. Essa talvez seja a razão de muitos que aqui chegam para o vestibular acadêmico ou o da vida e se arvoram em relatar o que não vivenciaram, palmilharam, sabiam ou sentiram. Saber uma cidade é ver, entender seus ritmos e mudanças, percorrê-la sem preconceitos e ajuizar as razões de cada fato. O historiador produz saberes, pois pesquisa, investiga e dialoga. O propagador do nada apenas quer dizer-se incluído, mas quiçá seja mero aprendiz do que não viveu sem consultar a história ou a veridicidade. Alberto Moravia–escritor italiano morto em 1990, parecido fisicamente com o Ariano Suassuna, paraibano de saberes pernambucanos–, tinha o cuidado de só escrever o que sabia ou pesquisava a fundo. É bom conselho.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/03/2012

