NOTÍCIAS DE LÁ E DE CÁ – Jornal O Estado

Devo notícias a ela. Vem todos os anos ao Brasil para férias. Confessa que já se sente estranha na terra desse trânsito louco, cheia de lixo, camelôs e trombadinhas. Agora, catou e enviou os poucos comentários que leu nos jornais alemães, não os mais notórios, e os rápidos flashes da TV sobre a visita de Rousseff à Merkel. Poucas linhas, nada substancial, mero protocolo, retórica diplomática e que tais. A culpa seria dos bancos internacionais; da crise que mexe com a Grécia e suas ilhas maravilhosas esvaziadas por falta de passageiros e navios problemáticos; passa pela Irlanda friorenta e não respeita a história italiana congelando cidades da costa, após a saída grotesca de Berlusconi, o autoproclamado garanhão.
Decisões são adiadas, greves, demissões e reduções de salários constrangem os governos da Espanha e Portugal. Sarkozy, acossado, só pensa na reeleição e transformou a premiê alemã em sua terapeuta pessoal. Lá na Rússia, Puttin foi eleito, apesar dos comentários de observadores, fala sem medo das suas ogivas nucleares. A ONU vê, atônita e sem reações, um anônimo, insone e desatinado militar americano invadir casas e matar, em madrugada sombria, nove crianças, três mulheres e quatro homens que apenas dormiam na sua pátria ocupada, o Afeganistão. Obama não precisava dessa, bastam os republicanos. São essas as notícias do mundo que trocamos em nossos periódicos e-mails. Mas, ela pede notícias de cá.
O que dizer? Chico Buarque faz show em meios às enchentes de São Paulo cantando as músicas de sempre. Rita Lee arma barraco em apresentação em Alagoas. O grande Chico Anysio agoniza em clínica particular do Rio que neutraliza a dor, dopa e prolonga o inevitável. Lula luta bravamente contra um câncer de garganta que o faz, por enquanto, calar. Romero Jucá, um senador de Roraima, que já foi líder de vários presidentes, independente de ideologias, é demitido por Dilma em face da rebeldia do seu PMDB, o partido que baliza qualquer governo e sabe as fichas que tem. Ao mesmo tempo, demitiu, sem prévio aviso o dep. Cândido Vaccarezza, do PT, da liderança na Câmara Federal. Pede para que diga algumas palavras sobre a Copa de Futebol. Dinamitaram vários estádios e os reconstroem com dinheiro público. A CBF – a entidade que controla o futebol – está em crise. Saiu o presidente Teixeira, 23 anos no poder. Entra Marin, 79 anos, pensando no futuro. Adriano, o imperador da bola, deixa o Corinthians após dois gols, excesso de peso e dinheiro muito no bolso. Enquanto isso, as cidades convivem com as vias de acessos aos futuros estádios asfixiadas por bicicletas, carros e motos vendidos em prestações mensais e mortais. Os hospitais públicos estão superlotados por motoqueiros com traumas, quando não vão a óbito. Só na cidade de SP há mais de 500 mil bicicletas. Imagine o número de motos.
Antigamente, quando por aqui passavam circos ditos internacionais, havia o Globo da Morte. Dois motoqueiros se cruzavam velozmente em um círculo vazado de aço e nós ficávamos enregelados lá nas arquibancadas. Hoje, as ruas são os atuais globos da morte, os motoqueiros vêm pela esquerda, direita, cruzam, não respeitam sinais e os acidentes ficam repetitivos.
Sei que já ouviu falar do Ficha Limpa, o projeto de origem popular que se transformou em lei e pune políticos corruptos. Vai valer nestas eleições municipais de outubro – aqui tem eleições de dois em dois anos – e muitos deles estão encrencados. Deveria ter ficha limpa para todos os brasileiros. Por que não?
A ferrovia Transnordestina e a transposição do Rio São Francisco estão quase paralisadas. No mais, sugiro para as jovens alemãs estudantes de medicina que se especializem em cirurgia ou dermatologia e venham para o Brasil. Ganharão muito dinheiro, pois as mulheres daqui estão obsedadas com as aparências e fazem plásticas, preenchimentos, botoxes e acreditam que podem parar o tempo que lhes dá, em contrapartida, as estrias, as celulites e as gordurinhas naturais que não aceitam. Elas não sabem, isso nada incomoda os homens de verdade, que também as possuem. Fique bem. Até a próxima. Auf Wiedersehen.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2012

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