INTERVENÇÕES PARA O FUTURO – Jornal O Estado

Convivo com arquitetos há décadas. No começo da minha vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” de mercado na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga, Jorge Neves, Maria Clara Nogueira Paes Caminha e, posteriormente, André Steindorfer. Juntos com profissionais de outras áreas passamos a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX- com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos – a feição urbana da Cidade Luz.
O arquiteto deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou cogitando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas com a função e a formação de urbanista quando a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposto para o julgamento de terceiros a sua genialidade ou uma mera cooptação com os desejos e o perfil ideológico dos governantes, a quem presta serviços.
Alguém, com mais bagagem urbanística do que eu, refere que Fortaleza não tem – salvo exceções – nada a preservar. Diz que as intervenções sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é dogma, privilégio ou casamata de arquitetos, por mais bem intencionados que sejam. O urbanismo comporta, por sua complexidade, uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para ajustar/criar as legislações de áreas a serem preservadas, desapropriadas e renovadas.
Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A visão recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com a proliferação de edifícios de alto porte; a mixórdia de grandes barracas de toda natureza tal qual uma babel; os projetos da baía de lracema e o reordenamento da Av. Beira Mar(trecho Ideal – Iate), a implantação dos Veículos Leves sobre Trilhos – VLT de Parangaba ao Mucuripe, e a construção do Aquário exigem um pensar global, sem estrelismo, participação popular e uma coordenação lúcida – e não autoimposta – que possa emergir no decorrer das discussões.
Tudo isso tem a ver não somente com as mínimas ou grandes intervenções que Fortaleza precisa e deve sofrer para a Copa de Futebol de 2014, mas para encorajar a Prefeitura e o Estado a abrirem discussões mais profundas sobre o que fazem e o que ainda pretendem fazer. As intrigas, por exemplo, criadas com as ligações domiciliares e a expansão das redes de água e esgoto e o recapeamento asfáltico são provas de incoerência ou falta de espírito público.
O importante é que cada grande intervenção urbana seja para a Copa ou para a cidade que não vai parar após 2014, tenha o aval da sociedade e de técnicos isentos que, por enxergarem, muitas vezes, a ação de forma diferente, discordam, complementam, ajustam, e, por certo, enriquecem as concepções que são, quase sempre, cópias do que já se fez ou se faz em outras grandes cidades do Brasil ou do exterior.
Tomemos o exemplo de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas e a sociedade definam as mudanças estruturais de uma zona de recuperação.
A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como agentes públicos, profissionais ou cidadãos a definir o futuro da cidade onde moram, tomando-as belas. E por falar em beleza, é bom lembrar São Tomás de Aquino:“As coisas belas são as que agradam quando vistas. Portanto, a beleza consiste na devida proporção; pois os sentidos deliciam com o que pertence à sua própria espécie, porque até o sentido é uma espécie de razão – exatamente como o é toda faculdade cognitiva”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2012

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