A LIVRARIA – Diário do Nordeste

Para mim, livraria é lugar bendito. Jorge Luís Borges na sua sabedoria argentino/europeia dizia que “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. Na Internet há um blog: “Quero morar em uma livraria”. Dia desses, andando por aí afora, revi uma que considerava das melhores do mundo. Agora, pouco a pouco, deixa de ter a aura que o livro lhe confere. Vende livros, cds, dvds, equipamentos eletrônicos, jogos, revistas e jornais. Pais com filhos procuram iniciá-los na leitura/literatura, o mundo da introspecção. Adolescentes liberados, com piercings e tatuagens, usam laptops e os I da vida – pad, phone e pod. Sentam-se em qualquer lugar e sugerem “entrar em alfa” ou algo assemelhado. Fecham os olhos ou os arregalam mirando o infinito. Nada de livro à mão.
Aposentados ou assemelhados, esgrimindo com a solidão, leem livros de forma continuada, dia sim, outro também. A custo zero. Usam marcadores após a leitura do dia e os repõem nas estantes classificadas. Parecem ser estacas fincadas, página a página, adiando o encontro certeiro.
Há silêncio e ruídos na “cafeteria” que supre a fome no espaço gourmet com aromas de café e bolos. A área de informática aumenta e o uso gratuito de Wi-fi permite a conexão com as redes sociais. Plasmam ou imaginam o vir-a-ser do incógnito futuro que aporta em todas as manhãs orvalhadas. Comprei livros e não saí pela porta principal. Ela exalava o cheiro da impressão aligeirada das novelas de ocasião, acolitadas pelo mar de livros de autoajuda. Vade retro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2012

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