EPIFANIA DO BARROS PINHO – Jornal O Povo

Não invoco amizade com Barros Pinho. Ele não está aqui para confirmá-la. Fomos colegas de 61 a 64. A Escola de Administração do Ceará nos usava como alunos e cobaias. Éramos aprendizes em sedes mutantes, goteiras a marcar o cimento do piso. Fundamos o Centro Acadêmico Juscelino Kubitschek para nos dar compasso e Barros Pinho emerge na presidência. Fomos à luta. Ninguém nos reconhecia como universitários. Que escola era aquela? Veio o agosto de 61. O presidente Jânio Quadros renuncia. Há impasse com a presença na China do vice Jango.
Aqui, jovens conseguem de Moisés Pimentel, então dono da Rádio Dragão do Mar, um transmissor volante. É decretada greve universitária. Barros Pinho fazia parte do “Comando da Legalidade”. Jango assume o governo. Floresce o ano de 1962 e o também Zé Maria luta pela presidência da UEE, reduto exclusivo de universitários da UFC, a única de então. E vence. Em julho, fomos ao conturbado congresso da UNE em Petrópolis, Rio. A comitiva cearense recebe uma Kombi do Governo Federal, por iniciativa do Senador Paulo Sarasate. Sou designado para dirigi-la por lá até que fosse enviada para Fortaleza. Paralelo a isso, BP intuía que “a ponte e o rio/me ligam à vida/vida que se liga/na solidão”. Conhece Isabel Aracimy que o tirou da solidão e virou seu mote de vida permanente fugindo do “amor nas veredas disputado no chão com as serpentes”.
Abril de 64, uma tormenta o leva para as “terras barrentas do Parnaíba” e é trazido para a avenida 13 de Maio, mas não para a igreja. Tudo era o “trágico do apocalipse no último cata-vento”. Ultrapassa o portão verde e sai com “a indignação do poeta a rasgar no punhal”. Com eloquência, destemor e desenvoltura é eleito vereador de Fortaleza e, no pleito seguinte, elege-se Deputado Estadual. Mas o poeta encobria um educador que precisava construir uma escola. Com unhas e dentes constrói e dirige um colégio a homenagear o abolicionista e escritor Oliveira Paiva, autor de “Dona Guidinha do Poço”. E disse: “Fui além de mim para acender uma luz”. Luzes nunca o ofuscaram.
Em 1985 assume a Prefeitura de Fortaleza e sai tal como entrou: limpo e festejado. T.S. Eliot acreditava que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção”. Eu direi que a poesia era o seu remanso ou o catalisador de suas infinitas angústias, humano pensante, profundo e engajado que foi. Depois, o gestor e homem de letras reflexivo pastoreou, por anos, com aprumo e retidão, a cultura do Estado e a de Fortaleza sempre fazendo milagres com os tostões contados.
Poetou e contou versos que se transmutaram em prosa. E ei-lo maduro, pai e avô, temente a um Deus que imaginara (des)acreditar na reflexão e no mourejo da lida e escrita. Cãs, com 70 poemas para orvalhar o outono, canetas no bolso da camisa, em plena madureza sentia e vivia a sua epifania no planisfério do castelo azul. O circo encantado o chama, como antevira, em Núpcias das Águas: “o céu se preparando pra noite com o lençol da camarinha”. E no outro lado, além do planisfério, é recepcionado pelo poeta e amigo Gerardo Mello Mourão: “amadureceram-me as narinas sábias tal a rosa-dos-ventos dia e noite do navegante.”

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O POVO EM 03/05/2012.

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