BARROS PINHO, PALADINO, POETA E POLÍTICO – Jornal O Estado

Ontem, no jornal O Povo, falei sobre José Maria Barros Pinho. Hoje, amplio um pouco o que contei sobre o jovem magro, altura mediana, branco de tez, mãos inquietas e claros olhos profundos que conheci em 1961. Ele saía da esquina da Rua Pedro Pereira com a rua Padre Mororó à procura do seu destino. Encontramo-nos. Éramos aprendizes de profissão incipiente em uma escola que fora fruto de um acordo entre políticos que lotearam cátedras. Tínhamos um sonho e o perseguimos como ciganos, começando na Faculdade de Ciências Econômicas na Av. da Universidade. Como invasores ou sem teto, fomos expulsos para não contaminar os que pertenciam à novel Universidade Federal do Ceará. De lá, mudamos para uma casa de telha vã e goteiras mis na Av. Duque de Caxias, esquina com a Rua Jaime Benévolo. Paradoxalmente, essa casa pertencia a uma irmã do então Reitor da UFC, Martins Filho.
Pois foi ali que ele e mais duas dezenas de pessoas foram, dia a dia, amalgamando essa profissão de Administrador que, sequer, tinha sido reconhecida. Unidos nessa luta interna contra o preconceito dos que nos viam de forma atravessada, Barro Pinho os desafiou, em 1962, e conseguiu, imaginem, ser eleito presidente da União Estadual dos Estudantes- UEE, entidade cativa e inexpugnável dos integrantes da UFC. A essa época, era um feito histórico. Fora a porteira derrubada pelo jovem teresinense, com raízes em Crateús, aclimatando-se na brejeira Fortaleza de então. Entrara por mérito, eloquência e destemor e daí a senda que palmilhava foi, pouco a pouco, virando estrada de refregas contínuas. O que lhe fizeram em 64 foi o condão, uma espécie de elixir que fortificou suas convicções libertárias
Estava sendo forjado o paladino. Passada a tormenta, apascenta seu coração nos braços da meiga Isabel Aracimy, colega de escola, apascentadora de seus arroubos e companheira de vida. Fez-se, por mérito e luta, vereador, deputado, prefeito da já sua Fortaleza, secretário da cultura do estado e condutor das curtas rédeas da franciscana Fundação Cultural de Fortaleza. Pai de cinco filhos que cresciam como gente, sob os olhares de uma comparte ciosa de seus deveres e sempre relevadora dos arrebatamentos do inquieto marido. Agora, aplainamos as nossas lembranças, inquietações e desassossegos com escritos.
Gervásio de Paula, Airton Monte e Juarez Leitão, já disseram tudo – e muito bem – sobre Barros Pinho, esse colecionador de punhais, ourives de poemas e político por sentimento e destino. Pensei até em transcrever partes de seus escritos, mas seria apropriação indébita do mérito alheio. Quedei-me ao universo limitado que vivemos em tempos idos e revividos em inconsequentes colóquios na sala plural do Sérgio Braga, onde surgiu o Clube do Bode, uma anárquica criação coletiva sob as bênçãos do Barros Pinho e a pena satírica do Audifax Rios.
Agora, nesta sexta-feira, com ou sem fé, às oito da noite, na Paróquia de São Vicente de Paulo, cada um se achegue por lá com a sua consciência. Se possível, para tentar (des) montar o quebra-cabeça que nos faz náufragos sempre que a dita cuja nos prega peças.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/05/2012

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