Depois de amanhã você tem um compromisso com a sua mãe. Importa não que ela tenha morrido há tempos. Vá ao cemitério, remexa no álbum de família e ore, se fé tiver. Importa não que ela não suporte com quem você vive. Importa não que ela já não entenda – ou ouça – a metade do que você diz. Importa não que ela more longe. “Longe é um lugar que não existe”, diz Richard Bach em uma linda novela.
Dê um jeito de chegar. Hoje, com os recursos da tecnologia, você pode gravar uma mensagem e enviar para que repassem para ela. Se não sabe, peça a alguém para fazer isso com você. Mas, por favor, diga apenas o que falaria se estivessem juntos. Não siga as fichas bregas dessas mensagens ou cartões para as mães que oportunistas colocam em carros de som, lojas e livrarias para vender. Escreva, diga ou grave apenas o que sente, mesmo que ache bobo. Sua mãe sabe quem é você.
Filho não tem idade, deixe-se levar por seus sentimentos, mas nada de pieguices, lágrimas falsas, aquelas flores compradas no semáforo ou os hediondos jarros que ficam na entrada dos supermercados. Faça algo de coração ou quede-se quieto. Mãe entende até o que não se diz e faz.
Fui o primeiro filho de uma mulher destemida, inteligente e companheira do meu pai por 50 anos. Morto em 1991. Ela tem agora 92 anos e dá conta da sua casa, empregadas, vida, presença ou ausência de filhos, netos e bisnetos. É independente e distribui o seu dinheiro segundo os seus critérios de justiça. Todos os domingos tomamos café juntos. Levo sempre uma lembrança para ela, mínima que seja. Ela, meio sorrindo, meio séria, diz: “o João pensa que sou criança com esses presentinhos que traz”.
Ela é assim. Clara e direta. Mora em casa cercada de árvores e flores. Lê jornal todos os dias, assinante que é. Vê e ouve as missas das emissoras católicas de TV e movimenta as mãos fazendo “fuxico” com pedaços de panos coloridos, linha, agulha para criar tapetes e adereços para os que a visitam.
Certa vez, uma amiga da família, quis colocar a Margarida numa sinuca. Era dia do seu aniversário. Ela ia cortar o bolo. A amiga disse: vamos ver para quem ela dará o primeiro pedaço. A bonita Marga olhou de soslaio, ajustou os óculos, pegou um prato grande e começou a cortar pequenos pedaços e nos deu a todos, ao mesmo tempo.
Assim, depois de manhã, espante a preguiça e vá ao encontro de sua mãe. Não importa se viva ou morta. Ligue-se a ela. O admirável será o encontro e ele só acontece se você for simples e verdadeiro. Desnude-se dos aparatos como a criança que ela embalou e acalentou no seu colo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/05/2012

