CONTO, DESCONTO E RECONTO – Jornal O Estado

Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso custe a ausência de pessoas essenciais, ou vai se deixar invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você. Alegro-me hoje com pequenas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso de qualquer natureza e provar que sou isso ou aquilo.
Quero andar de sapatos sem meias, conversar com estranhos, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conviver com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas. Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho, que me dá o prazer de criar. Viver do que acredito: benquerença desinteressada, consciência social, viajar, ver filmes, ler e escrever da forma sempre difusa como sempre o fiz.
Idealizei. Quis muito que minha gente vivesse os meus sonhos e seguisse a estafante trilha. Decidiram por outras opções. É provável que não tenha sabido engajá-las com ternura, nessa dura e crua lida. Assim, deverei continuar só, do meu jeito, meio sem jeito. Não cobro mais. Já não cometo a tolice de querer demonstrar o que fui, sou e o que não sei.
Sou péssimo ator, não sei contar piadas, bebo pouco e não tenho frases de efeito. Todas já foram ditas. Encanto não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como menino em parque de diversões. A vida é. Não se arquiteta, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos, quando já lia tanto quanto agora.
Agora, neste platô com escarpas ao meu redor, não deixei de amar e acreditar, mas um pouco de ceticismo me acicata. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras. Os embusteiros são como pacotes bem produzidos, mas os laços que os adornam são cegos e só com o tempo ficam desfeitos e aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter que evolam do nada bem escondido na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e nada é. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia.
Desde sempre, tento ser pontual nos meus compromissos e encontros. “Fazer o outro esperar é uma prerrogativa de poder, poder que eu não tenho”, já dizia Roland Barthes. Considero a adulação, a bajulação ou o puxassaquismo uma forma de vileza abjeta. Os bajuladores são como vampiros, sempre atrás de sangue novo. Não acredito em quem tem muitos amigos. O homem se encontra em si mesmo. E, quiçá, com poucos.
Sabem vocês o nome da profissão dos que cuidam das aparências dos cadáveres? Vi, há tempos, o filme japonês “A Partida”, de 1998, em que o protagonista, antes violoncelista de orquestra desfeita, vai trabalhar, sem contar – por vergonha – à sua companheira, no embelezamento de cadáveres que serão, em seguida, cremados. Ao final, ele que era distante do pai que morre, paradoxalmente o prepara para o forno que o transformará em cinzas. Ironia ou destino?
Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje, ano 12 de um século que vai mudar o mundo, como todos os outros pretendiam, descubro que há um velho sociólogo judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida” e isso por intermédio de Marcos Flamínio Peres, que o entrevista. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, faz-nos perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Ele escreve livros, tais como “O amor Líquido”, “A Vida Líquida” e o “Medo Líquido”.
Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’, “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Carlos Fuentes, escritor mexicano, falecido nesta semana, sabia disso quando intuía que “a realidade não é suficiente”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2012.

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