O CENTENÁRIO DO “CEARENSE” LUIZ GONZAGA – Jornal O Estado

Luiz “Lua” Gonzaga é quase cearense. Nasceu em 1912, no Exu, Cariri pernambucano, próximo da divisa com o sul do Ceará. Dada a contiguidade, o filho de Januário tocava nas feiras do Crato e de Juazeiro. Ao tempo de “sentar praça” ou servir ao Exército, em 1930, preferiu vir para o 23º. Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Em 1939 Gonzaga mandou-se com mala, cuia, embornal e sanfona para o Rio de Janeiro. Sabia que ia enfrentar preconceito. Lá, por acaso, uniu-se a Humberto Teixeira, advogado cearense ali radicado que dirigia um escritório de direitos autorais e anteviu o sucesso do futuro “Rei do Baião”. Ele e Teixeira fizeram várias parcerias. E aí é que entro na história do Luiz Gonzaga.
Humberto Teixeira, na linguagem política local da época, era “paraquedista”. Vivia no Rio e queria eleger-se deputado federal pelo Ceará, nascido que era em Iguatu. Trouxe, então, Gonzaga para animar os seus comícios. Nascia ali o embrião dos “showmícios”. Menino, calça curta, saí de casa escondido para ver Luiz Gonzaga em show em frente da Igreja da Piedade. Tinha pouca gente, no princípio. Quando o Gonzagão começou a tocar, o adro foi ficando repleto de gente e o Humberto acenava para o povo. Cheguei perto do “Rei” e vi sua vestimenta adornada como os dos cangaceiros de Lampião.
Passa o tempo. Já adulto, via Gonzaga pela televisão que, preconceituosa, não dava a ele os créditos que merecia pelos versos simples, mas poéticos de suas músicas.
No ano de 1984, Gonzaga foi homenageado com o Troféu Sereia de Ouro, pelo Sistema Verdes Mares, quando tive a alegria de revê-lo em Fortaleza e reverenciá-lo. Morto em 1989, hoje, produtores musicais, veem que “Gonzaga foi o primeiro a atingir, com a mesma música, o povo e a elite”, no dizer de Thiago Marques Luiz. Thiago reuniu agora, entre outros, nomes como Dominguinhos, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Amelinha, Zeca Baleiro e Zezé Mota para produzir e gravar três CDs com 50 músicas do Gonzagão. Em julho, o nosso Fagner estará em São Paulo, em show no Sesc Vila Mariana, também para louvá-lo.
O cantor e compositor Felipe Cordeiro considera que “ele afirmou, de uma vez por todas, a música nordestina no país, sem ser caricato. Ele foi um acontecimento do tamanho de um Tom Jobim”. Para quem não sabe o surgimento da agitação vanguardista “Tropicália”, nos anos 60/70, com Caetano, Gilberto Gil, Raul Seixas e muitos outros, tem um pezinho nas estacas musicais binárias plantadas pelo menino/homem de Exu que respeitava o pai Januário. Pena que o filho Gonzaguinha tinha outro pensar. Isso é outra história.
Agora, neste junho de 2012, quando se comemora, antecipadamente, o centenário do seu nascimento que, de fato, será no próximo dia 13 de dezembro – paradoxalmente, Dia de Santa Luzia, a protetora da visão – resolvi homenageá-lo. E o fiz no 4º. Festival BenJunino, no BenficArte, evento musical que empreendo para homenagear e incentivar compositores, cantores, promissores sanfoneiros de xotes e baiões, com prêmios e a mesma alegria que tive, quando criança, o vi em praça pública na boca da noite.
O menino que fui, afinal, está quite com o Gonzagão.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/06/2012.

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