Uma amiga americana, professora doutora, casou-se, segundo sua versão, com um músico brasileiro dezenas de anos mais jovem, simplesmente para abrir a ele as portas do paraíso americano. O tempo passa e a reencontro. Como vai o casamento? “Ele entrou nas forças armadas americanas e agora é cabo músico da banda dos fuzileiros navais no Iraque”, disse-me ela ano passado. Essa história, ou estória, foi comum nas últimas décadas do século passado, e até recentemente.
O fim do Milagre Brasileiro dos anos 70 enxotou muita gente para “fazer a América”. O município mineiro de Governador Valadares, por exemplo, era o campeão e mandava milhares de seus guapos filhos para ganhar a vida em dólar. Uns entravam com a ajuda de “coiotes”(os que comandam a entrada ilegal), pagando centenas/milhares de dólares pela travessia no Rio Grande. Outros, tinhosos, casavam-se. Tais como o músico. Tudo por um punhado de dólares. A rede Globo exportava novelas. Jornais, quase sempre tablóides, em língua portuguesa, proliferavam na Flórida, Nova Iorque, New Jersey, Califórnia, Massachussets, Connecticut e em vários outros quadrantes dos EUA. Eles continham anúncios de empregos, venda de veículos facilitada para estrangeiros, propaganda de profissionais brasileiros, sobretudo advogados “especializados” em regularização de “indocumentados”, Green Cards e casamentos. Esses jornais, na sua maioria, desapareceram.
Depois da débâcle econômica de 2008, a história e a balança do mundo mudaram. Muitos brasileiros estão de volta falando um inglês sofrível, sobraçando álbuns de fotografia, tatuagens, celulares e algum dinheiro para recomeçar a vida por aqui. Foi assim também há algumas décadas com o Japão, que preferia descendentes de seus naturais e os utilizava como mão-de-obra semi-escrava. O Banco do Brasil prosperou exponencialmente por lá com as remessas mensais dos nossos trabalhadores para suas mães, suas mulheres e seus filhos. Os decasséguis não contavam para as suas famílias brasileiras as vidas ultrajantes que viviam. O encanto acabou e a volta chegava a ser financiada pelos parentes daqui.
Por outro lado, europeus, especialmente portugueses, espanhóis e italianos, aqui vieram, apaixonaram-se rapidamente e resolveram “casar” com brasileiras e ganhar o visto de trabalho ou de residentes. É claro que há uniões verdadeiras, por sentimento, mas o casamento fabricado era e é, muitas vezes, uma mera “união estável” a troco de compensação financeira preestabelecida. Há casos até de homossexuais que arranjam cônjuges para regularizar sua permanência na terra brasilis. E não deixam a sua vida airada.
Esse fluxo, começou em 2003, quando a economia europeia já apresentava uma crescente taxa de desemprego. Sabe-se que a Polícia Federal, por amostragem, visita os novos casais e até pode processar os nubentes por falsidade ideológica e expulsar os estrangeiros que se aventuram nessas tramóias. De qualquer forma, o Brasil já pode orgulhar-se de ser novamente, tal como nos fins do século 19 e começo do 20, uma terra prometida. É a glória. Nós temos a força.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2012

