Li na revista “Época” desta semana uma reportagem sobre as amizades. Embora seja longa e feita por três autores, ela me pareceu superficial. Cita muita gente contemporânea, principalmente dos EEUU, escafandra Aristóteles, passa pelos franceses Montaigne e La Boétie e chega ao Brasil.
Se entendi bem, há duas conclusões. 1. Ninguém tem mais que cinco amigos, incluindo os familiares. 2. Apesar disso, 54 milhões de brasileiros estão escarafunchando o Face Book para encontrar com quem preencher os seus vazios. Na verdade, ninguém nos preenche. Nós, eu, você e todos, somos seres incompletos na ilusão de um paraíso que não acontece aqui.
Quiçá depois. A liberdade de estar só, lendo o que queremos, não tem preço. A felicidade do anonimato é algo prazeroso, daí é preciso, vez por outra, arrumar bornais e dar a cara pelo mundo. Não sei se tenho cinco ou mais amigos, pois antes é preciso deixar claro o que entendemos por amizade. Para mim, se há interesse não há amizade. O interesse deve ser apenas o de estar junto, trocar sentimentos, sem que aquilo seja trombeteado.
Mas tenho certeza que não preciso fazer caras e bocas para falar com todos. Amizade é desígnio. Se não sou espontâneo é melhor me afastar do que não me dar a liberdade de ser eu. Quando o tempo resgata lembranças, talvez nos pregue peças. Aconteceu como lembramos?
Hoje, como antes, há solidão, esse sentimento que nos diz humanos e imperfeitos. Mas isso não dá alvará a ninguém para usar o Face Book, Orkut ou o que valha para escrever bobagens ou traçar um perfil seu. Estou fora dessa. Afinal, você sabe quem você é?
João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/09/2012

