CRÔNICA DE NATÉRCIA CAMPOS – Jornal O Estado

Em pequenas folhas de papel, com gravuras do francês Claude Monet(1840-1926), recebi, em janeiro de 2002, esta carta de Natércia Campos, a amiga escritora que perdi para o inescrutável, depois de anos de luta.
Natércia viajava a Brasília para a posse da filha Clarissa em função pública, decorrente de concurso. Escrevi, antes da sua viagem, algumas palavras em postal do reconhecido pintor americano Edward Hopper (1882-1967), que retrata, basicamente, situações que falam de solidão. Como dez anos passaram, creio poder dar a palavra à Natércia Campos, com partes do texto integral, por escrito, que guardo:
“João, estou no saguão de espera. O vôo sai às 15.40hs. São 15.10hs. O que me faz feliz é ter recebido seu cartão ‘de surpresa’, ler e ser por você instigada!. As perguntas me levam a pensar, a imaginar e esta expectativa é a pitada exata de sal…se não houvesse esta reprodução de Edward Hopper eu estaria aqui a espera, lendo a “Veja”(acabei de adquirir) e no “ao” vou ler o Mainard… e lógico pensarei na próxima alegria da Clarissa quando avistar a Mâiñha (assim ela me chama).
Agora já afivelei o cinto. São 15.50hs. Atrasou. Você e o seu cartão me levam para outros caminhos e devaneios. Bem prática, olho a mulher e penso que ela aproveita o sol estival. Assim também é o sol que atravessa minha janelinha deste avião. As janelas da sala dela são altas e os vidros refletem um céu azul sem nuvens. Ela é uma mulher ordeira. Na mesa só vaso com flores quebra com a luz o frio da cena. Ao longe vislumbro uma cidade. Ela já deve estar em um subúrbio, pois é grande a distância. Ela está impecável, o cabelo bem cortado revela seu pescoço longo e branco. Os reposteiros estão levantados quase na mesma altura. Eu não gostaria de aqui viver. Nela descubro coisas que diferem de mim: não gosto de estar sozinha e de costas para todo um ambiente (quarto ou sala)…tenho a sensação de estar indefesa. O avião começa a se mexer… vai de ré. São 16,05! Gostaria de tê-lo ao meu lado. Engraçado, a cadeira está vazia. Um cheiro d’eu.”
E continua, após a decolagem: “Você é também Campos daí tanta afinidade…Eu também sou Soares… é recíproco. A Carol ficou feliz com o seu cartão. Tudo “lá fora” é branco e a sensação é de voar em avião pequeno. O sol tem luz de prata. O comandante pede que ‘os passageiros fiquem sentados e com os cintos’. Continuamos no mundo branco. Não me admiraria se visse, de repente, um anjo! Veja como foi uma maravilha seu cartão. Fez esta viagem trepidante tornar-se amena. Palavras e pensamentos são companheiros”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2012.

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