CALMARIA E BRASA – Diário do Nordeste

Estamos empanturrados de comida ou cheios de graça do Natal. Agora, nesta calmaria até o meio dia do 31, cuidamos de nossas vidinhas, agradecendo mimos recebidos, levantando as contas a pagar no novo ano, fazendo planos, a deletar ou aceitar as mídias sociais a nos assolar por todos os lados. Somos colecionadores de instantes. Eles nos agradam ou maltratam.
Ninguém é tão forte para já não ter esmorecido por conta de fatos ou pessoas. O ímpeto nos transforma em brasa; é a inquietação salvadora, a loucura a nos impelir ao desconhecido e a nos moverem cada jornada. Não há ano novo se as trilhas forem as mesmas. Devemos ter dúvidas, mas sejam elas dizimadas pela coragem de retirar a nossa âncora da masmorra existencial da inação. Mexa-se, dispense guias e vá abrindo as suas picadas, mesmo se cansar. Os mortos não cansam.
Cansar é estar vivo. Recupere-se, a água está ao seu alcance. Basta procurá-la como se fazia em criança brincando de esconde-esconde. Não se meta a besta. O homem lá de cima e os cosmos não gostam disso. Deixe de se achar. Não pose. Os cliques da vida e do insondável gravarão seus desvios. Seja você; não pense em adornos. Nenhum vai modificá-lo.
Todos ficamos nus. Há, a cada dia, um volume de inquietude a ser removido para não deixar sequelas. Não chore em silêncio, há ombros disponíveis. Ache-os. Divida, não subtraia. A calmaria é um hiato. A brasa é a constância. Queime-se. Enumere seus objetivos, mas dê um jeito de ajudar o destino ou a sorte. Não há jardins sem se estrumar o chão com as nossas próprias mãos. Para as rosas, dizia Machado, o jardineiro é eterno. Vida sem luta é pena. Feliz 2013.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2012

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