Chovia em Brasília quando a presidente eleita Dilma Vana Rousseff entrou, na sexta-feira passada. Foi na altura da Catedral desenhada por Niemeyer, no velho Rolls Royce, com capota levantada, para a posse no Congresso Nacional. Ao sair, o sol espreitava e ela pode, junto com a filha, desfilar de pé e acenar para a multidão. Nada do que digo neste escrito é novo, todos viram, leram ou ouviram. As televisões aclararam ao Brasil, no dia da posse e da transmissão de cargo, as diferenças básicas de personalidade entre o presidente que sai e a nova presidente. O que todos já sabíamos. Lula foi e é espontâneo, derramado, desenvolto ao falar, pouco se preocupando com o conteúdo, mas sempre focado na emoção e na reação do público que o ouve. Foi assim ao sair do Palácio da Alvorada, em carro fechado. Abaixou o vidro e foi acenando com a mão direita. Na hora da decolagem do avião que o levaria para São Paulo, lá estava ele na cabine do piloto, de vidro aberto, quase com a cabeça de fora. Na outra janela, D. Marisa Letícia também acenava. Dilma é diferente. Já deu para ver. É metade mineira, metade búlgara. Sua mãe, também Dilma, tem Silva no sobrenome. Seu pai, o imigrante bem-sucedido, Pétar Roussef, registrou a filha apenas com o Roussef. Aliás, na parte brasileira ela não é só mineira. De lá saiu adolescente, indo para São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília. Seu discurso escrito, como manda o protocolo, tinha 48 páginas. Não lembro de ter ouvido qualquer menção a seu falecido pai. É claro que discurso protocolar presidencial é feito em equipe, mas traduz, em sua essência, a característica de quem dá as diretrizes. Ela, a presidente, corta, acrescenta e até finaliza. Uma das palavras mais citadas no seu discurso foi mulher. Deu ênfase ao compromisso de erradicar a miséria de 18 milhões de pessoas, até 2014. Hoje, 43% das moradias brasileiras ainda são insalubres, não têm água e esgoto, causando doenças e mortes. Esse é um grande desafio, sem falar na carência de educação pública de razoável qualidade e das reformas tributária e política. A par disso, já estão circulando e-mails pedindo o fim da reeleição.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2011.

