CUIDADO COM A CHINA – Jornal O Estado

Creio que estamos nos preocupando demais com as crises do mundo árabe/muçulmano e esquecendo a China. Não que as crises e ditaduras do mundo árabe/muçulmano não devam nos preocupar. A China é um país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Capital e interior. Não como turista, mas procurando ver o que não nos mostram e o que estava atrás de muros. Lembram os muros onde os toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois muitas micro-casas (6 m2 ou um pouco mais) ficam atrás de muros parecidos. Alguns muros são bonitos, tem até paisagismo moderno, mas na “passagem do toureiro” para a parte interna há uma brutal diferença. Há ainda muita pobreza na China, a diferença é que o jovem chinês tem mais ambição e foco que qualquer rapaz do mundo ocidental. Eles sabem que só há uma saída para cair fora dos guetos em que vivem, o conhecimento. Assim, estudam, mas para valer. Trabalham, igualmente, sem descanso. As “roupas comuns dependuradas” mostram como se assemelham às favelas brasileiras. Por outro lado, fora dos muros e de edifícios antigos e decadentes, há a China rica, esfuziante, com os mesmos luminosos bregas de Las Vegas. Há os chineses que atingiram o patamar do bem-estar, embora morem em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram os hábitos, vestem roupas copiadas dos ocidentais e até se acostumaram a beber vinho. Um exemplo: no ano passado, 2010, a China foi o maior consumidor do mundo de vinho francês tipo bordeaux. Consumiram 20 milhões de garrafas. Isso não é nada se compararmos com a população de 1,6 bilhão de pessoas, mas é um indício. Os deslumbrados de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Os casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos, não só nos hotéis internacionais, mas nas ruas e em centros comerciais. Você pode comprar bolsas Louis Vuitton originais em lojas do grupo francês LVMH ou, simplesmente, optar pelas imitações em mercados populares. Iguais os da Rua 25 de Março, em São Paulo. Dizia, no começo, que devemos nos preocupar com a China. Hoje, a China industrializada e poderosa – 2ª. economia do mundo – tem tentáculos em toda a África. Nada de ideologia ou guerra. A China tem exércitos de empresas trabalhando em todas as áreas industriais que vão, pouco a pouco, sendo quase donos de parte considerável dos países africanos e em outros continentes. Aqui no Brasil, já se sabe, a China é a nossa maior parceira comercial e vai em frente, acreditem. Hoje, penso eu, que a tal geração Y, a nascida depois dos anos 80 do século passado, deveria estar estudando Mandarim, a língua de lá. A geração Z – que ora assim denomino – nascida já neste século, cruzará, sem erro, com grupos de chineses, seus negócios, universidades e a nova cultura sínica que tem a sabedoria de agregar toda a tecnologia contemporânea, mas sem esquecer os velhos sábios, lendo a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Analectos”, de Confúcio. Esses livros, tais como a Bíblia, têm várias versões através dos séculos, mas dão uma ideia de como a filosofia “Tao” serve, inclusive, para os chineses endinheirados de hoje que se sentem os “tais” e acalentam os sonhos dos pobres que estudam, lutam e pensam atingir outros patamares de vida. Aprender sem pensar é tempo perdido, dizia Confúcio.
João Soares Neto, escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/02/2011.

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