FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS – Jornal O Estado

Tome cuidado ao falar. Especialmente, se você estiver com gente jovem. As relações entre eles, amizades, namoros, e mesmo os casamentos, são fluidas. Assim, atenção ao perguntar por fulana ou sicrano. Pode já ter deixado o rol de amigos, a relação estável ou até o casamento. Não mexa em caixa de maribondos. Hoje, crianças passam a conviver com outras, até então desconhecidas, que, na verdade, são filho(a)s do namorado(a) ou companheiro(a) da mamãe e/ou do papai que já não vivem mais juntos. Até se falam, mas cada um na sua.
Nesse tempo de relacionamento complicado, duas pessoas (pai e mãe), os que não estão – pelo menos naquele determinado momento – com novos relacionamentos, sempre ficam de fora. E, são eles, geralmente, os que apimentam ou fustigam as relações com os filhos, intrigando-os contra os pais/mães e seus novos relacionamentos. Os filhos, muitas vezes, passam a não entender nada e ficam confusos. Os pais se amavam tanto.
E agora? Começam, em face das novas relações de seus pais, a ficar parte do tempo na casa de avós que, se aposentados, têm tempo disponível. Têm tempo, mas ainda não absorveram a volatilidade dessas relações amorosas contemporâneas. O problema, nesses casos, é o ajuste dos sentimentos, das ideias e da linguagem para entender a mistura dos filho(a)s do(a)s filho(a)s com os filho(a)s do(a) novo(a) cara permanente ou passageira que desponta nas festinhas de aniversários e até nos cafés e almoços dominicais.
Quem é? Começou quando? Meu Deus, isso é o fim do mundo, são os costumeiros comentários dos parentes, especialmente do(a)s tio(a)s que nada têm a ver com a história pessoal do(a)sobrinho(a). Os avós, irmãos do(a)s tio(a)s, ficam compassivos, mudos, olham para o infinito, pouco entendem a peça que o tempo lhes pregou e da qual passam a ser atores.
As ramificações surgidas nessas novas relações ficam embaralhadas. De repente, o(a) filho(a) deixa três crianças na casa de seus pais. Duas, são neto (a)s e a outra? É filho (a) do moço que estava na direção do carro e, sequer, desceu para cumprimentar. E o que fazer para juntá-los? Como ter a naturalidade com uma criança estranha que, sem mais, nem menos, chega, com o(a)s neto(a)s querido(a)s para um fim de semana prolongado e a primeira coisa que fazem é pegar e mexer no novo celular do avô para jogar. Enquanto isso, os amantes, ficantes ou casantes se mandam para algum lugar sem barulho das crianças que geraram e prometeram criar com amor, assistência e presenças. Crianças, todos sabem, são manipuladores e os avós, nas ausências dos pais, pagam o pato, mesmo que estejam a tomar remédios para o diabetes, hipertensão, gota e as colunas vertebrais não aguentem abraços fortes dos netos que vêm em desabalada e inocente correria.
E há ainda as reclamações do(a)s filho(a)s quando voltam dos seus passeios: essas crianças não tomaram banho e as mochilas ainda não estão arrumadas? Os avós, silentes, sem terem sequer recebido um beijo do(a) filho(a) que chega esbaforido(a)e apressado(a),ajudam a fazer as mochilas, se despedem dos netos e do novo(a) “sobrinho(a)” que, todo(a) feliz, diz: Tchau, tio. Gostei, vou voltar. Até breve!
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/04/2011

Sem categoria