Bem que gostaria de escrever algo leve, crônicas charmosas, mas há caos no Brasil. Cidades grandes não permitem estabelecer horários certos de reuniões entre pessoas com trabalho em bairros diferentes. Vale a moda: “tipo assim, 4 da tarde”. Há intervenções urbanas necessárias e outras dispensáveis, realizadas durante o dia. Engarrafamentos. Existe velha mania de se dizer que a solução urbana passa pela cabeça de arquitetos. Nem tanto. É preciso que os profissionais tenham qualificação real em urbanismo, mas isso é outra conversa.
É imperativo um conjunto de profissionais diferentes para pensar uma cidade. Jaime Lerner, urbanista, fez – com equipe multidisciplinar – de Curitiba uma cidade planejada, modelo brasileiro. As demais cidades vivem em função de demandas emergenciais, enchentes e o desencontro da implantação ou ampliação de metrô, saneamento básico com a malha viária existente ou a ampliar.
De um tempo para cá, o Brasil vive a paranoia da Copa do Mundo/2014. Estádios inteiros são implodidos (a palavra está certa), quando poderiam ser ajustados às novas exigências tecnológicas, com custos bem inferiores. Além disso, há sentimento de urgência. Tudo tem de estar pronto. Logo. Criam-se comissões disso e daquilo e, para variar, poucos se entendem. Países existem para os seus habitantes e turistas, mas não para circunstanciais eventos que, quase nunca, duram um mês e deixam um pós-vazio.
A África do Sul está com estádios sem uso, dívidas a pagar e racionamento de energia. A Vila Olímpica do Rio está com aptos. abandonados e o estádio, cedido. Agora, será diferente. Somos a pátria do futebol e as prioridades se invertem. Aeroportos brasileiros são, quase todos, ultrapassados em segurança, acessibilidade e atendimento. Na Europa e Estados Unidos, os despachos (check-in) são feitos na ponte de embarque dos aviões e se pode chegar e entrar rapidamente. No Brasil tudo é corre-corre, sobe e desce escada, o avião muda de posição nos “fingers”, há atrasos, a maior parte dos atendentes dos aeroportos e das companhias não tem treinamento. É terceirizada. E complica o simples. Algumas empresas aéreas são mancas. Uma, até no nome.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2011.

