JÚLIA SARAIVA CAMINHA – Jornal O Estado

Houve um tempo, no fim do século 19 e até o século passado, em que famílias viviam entrelaçadas por vínculos de profundo afeto. Falo, especificamente, das famílias que se uniram pelo casamento de João Caminha Monteiro e Luiza Saraiva Leão, meus avós maternos. O Farmacêutico João Caminha Monteiro havia sido educado por sua tia, Eulina (Yayá) Bezerra Monteiro, solteira até à veneranda morte, olhos claros, pele muito branca, quase transparente, religiosa de missa diária, cabelos arrematados em coque e simplicidade profunda.
João, meu avô materno, morreu de câncer no estômago, aos 42 anos, depois de longa enfermidade, deixando muitos filhos e uma desolada viúva, apoiada por seu tio, o Padre João Saraiva Leão. Yayá, que a tudo acompanhara, pediu à Luiza, minha avó, para ajudar. E a achega consistiu em levar para a sua casa a sobrinha-neta Júlia Saraiva Caminha, estudante do Colégio das Dorotéias. Assim, Júlia passou a ser a filha que Yayá nunca teve.
A jovem Júlia, já formada, submeteu-se a um rigoroso concurso público para o então cobiçado cargo de Inspetor Federal de Ensino, do Ministério da Educação. Eram muitos os candidatos. Poucos passaram. Entres eles, Júlia e seus futuros colegas Edílson Brasil Soárez e Hugo Porto. O tempo passava e Júlia, ao mesmo tempo em que trabalhava, ainda ministrava aulas particulares para parentes e amigos.
Sua amiga e colega das Dorotéias, Marister Machado Jucá, pediu que a ajudasse na educação de seus filhos. Assim o fez. Eu, o sobrinho mais velho, aos 10 anos, ainda de calças curtas, quis fazer o Exame de Admissão ao Ginásio do Farias Brito, pulando o então 5º. Ano. Tive muitas aulas com a Tia Julinha e passei sem problemas. Anos depois, Margarida, minha mãe, engravidava pela nona vez. Gravidez normal, até que levou um choque na geladeira de casa. Dias depois, nascia Luiza Helena. Yayá ainda era viva. Ela e a Tia Julinha, que moravam no nosso quarteirão da Visconde do Rio Branco, foram ver a sobrinha e se encantaram com ela. Pediram, de princípio, que ela ficasse lá durante o dia, para desafogar a casa, plena de crianças. E aí Luiza foi ficando por lá.
Júlia, também solteira, culta, declamadora de longos poemas, católica fervorosa e simples, caiu de amores por Luiza. Repetia-se a tradição. Ela cresceu, formou-se em Sociologia e casou com o médico Winifried Hechelmann. Tia Julinha não entendia porque Luiza, sua sobrinha-filha, iria morar na Alemanha. Coisas do destino. Luiza teve duas belas filhas lá na terra de Goethe, ambas nas presenças de Margarida e Júlia. A primeira foi batizada com o nome Júlia, em homenagem à tia-avó. A segunda, recebeu o nome de Isabella, por ter nascido no dia sete de setembro. Ontem, 25 de maio de 2011, Júlia Saraiva Caminha,90 anos, serena, partiu para o insondável. As almas, imagino, podem voar e ela, certamente, deve ter dado um sobrevoo pela Germânia para olhar as suas duas sobrinhas-netas estudando medicina e sua sobrinha-filha Luiza, parceira fiel da clínica de seu marido, Wini.
Esta é uma história familiar, de vida e amor. Simples, como devem ser as das pessoas de bem que fazem de suas histórias uma eterna doação. Ela, certa vez, me mandou, entre bilhetes trocados, o seu salmo preferido: Sl 9.10: “Porque aqueles que buscam o Senhor têm o seu coração voltado para o irmão sofredor”. Tia Julinha, descanse em paz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/05/2011.

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