Não espere que fale hoje do profeta Daniel na Cova dos Leões, da sua guerra cósmica do Bem contra o Mal, nem de sua obediência a Deus. Tampouco contarei a vida do escritor inglês Daniel Defoe que, no início do século 18, escreveu o romance “Robinson Crusoé” em que narra a história de um náufrago lutando pela sobrevivência. Refiro-me a Daniel de Jesus. Nem profeta, tampouco inglês. Foi preciso ler reportagem de Raquel Salgado, na revista Negócios, em abril passado, para poder contar esta prosa a vocês. Daniel nasceu pobre, instrução secundária, conseguiu emprego de office-boy e só chegara a vendedor. Morava na Califórnia, subúrbio de Nova Iguaçu, interior do Rio. Um dia, aos 22 anos, resolveu correr atrás de um sonho meio louco, viver por sua própria conta. Passou a fazer produtos de limpeza e a vendê-los, porta a porta. Cinco anos depois, começa a lidar com cosméticos ou, preferencialmente, tintura para cabelos. Cria, a seguir, uma marca: Niely, apodo de família de sua filha Danielle. Ele tem dois outros filhos, João Daniel e Daniel Pedro. Mas, Daniel, o de Jesus, começou só. Tem hoje 2.200 empregados e, imaginem, quanto a empresa dele fatura por ano? Quinhentos milhões de reais. Não depende do governo e sua empresa cuida de fazer tinturas, xampus, condicionadores e tudo o mais que a vaidade feminina pedir. Qual é o segredo? Ele diz: “Delego poderes, mas todo mundo tem sua liberdade vigiada. Estou sempre junto, vendo o que cada um faz”. Danielle, a Niely, 25, é a sua gerente de marketing e fala: “desde que comecei a trabalhar aqui, há seis anos, as pessoas têm receio de contrariá-lo. Elas me falam o que pensam, e depois eu converso com ele”. Daniel, ao final:” Quem tem mais experiência aqui sou eu. Vai ser como estou falando”. Ditadura -ou centralização- à parte, Daniel é exemplo, entre muitos, de brasileiros que conseguem vencer por sua conta e risco, sem medo, sem padrinhos e tampouco participar de política. Dizia Sêneca, filósofo latino, que “ninguém é obrigado a correr pela via do sucesso”, mas sempre é bom lembrar de Virgílio, outro latino. Ele fazia crer que o sucesso só acontece porque alguém tem a coragem de poder porque pensa que pode.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2011.

