OURO E OTTO – Diário do Nordeste

Se você ainda não foi ver as exposições em curso no Espaço Cultural da Unifor, está perdendo tempo. São distintas, mas interligadas pela latinidade, embora distantes séculos. Elas são abertas a todos, de terça a domingo. Vá e leve sua família. Até o estacionamento é gratuito. Vá com tempo e limpe bem os olhos. Há estudantes-guias bem treinados que poderão ajudá-lo nessa caminhada por salões climatizados, com iluminação adequada que dá uma sensação de bem-estar. Comece pela “Tesouros e Simbolismos da Colômbia Pré-Hispânica”. Na realidade, ela é o produto da conjunção dos diferentes povos indígenas que habitavam a região que veio a denominar-se “Colômbia”, em homenagem a Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, exceto o Brasil. Fala a História que alguns desses povos, os Muisca, Quimbaya, Sinú,Tayrona e Calima, além da agricultura de subsistência, dedicavam-se à ourivesaria fina e eram, também, oleiros. Vá ver máscaras, brincos, piercings, figuras geométricas etc. O ouro era misturado à liga cobre e dava origem ao que eles chamavam de “tumbaga”. Não perca.
A outra exposição, “Do Brasil à Catalunha” é obra do longilíneo e assemelhado D. Quixote, o paraibano Otto Cavalcanti, que de Itabaiana foi ter ao Rio, flertou com o estilo de Modigliani, andou pelo Brasil, inclusive Fortaleza, e pousou sua maturidade artística em Barcelona, o fulcro da ciosa Catalunha. Otto é pessoa agradável de conversar, exibe vitalidade aos 80 anos e sabe, por formação, o que é pintura e desenho, misturando pincéis e nanquim. Suas cores são fortes, extra e vagantes, sintetizando o imaginário do menino do interior, o jovem atrevido na cidade maravilhosa ao maduro e irrequieto vegetariano que anda pelas “Ramblas” e sabe usar o vermelho, quiçá compensando as carnes não ingeridas. Dele, sou orgulhoso possuidor, desde 1983, do bico de pena, “Vilassara de Mar”, superposto por águas azuis, verdes, rosa, tons de amarelo e ocre, em que um “homem-músculo”, sob um frondoso guarda-sol às vistas de um ajudante, contempla, ao longe, jogadores de golfe. Voltando ao fio da conversa inicial, não adie sua visita. Veja o Ouro e o Otto. Aproveite o domingo. A arte une pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2011

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