Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universitária. Usava óculos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Calçava rasteira (é assim que se diz das sandálias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algodão customizada (são as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores.
Usava pulseiras de linhas entrelaçadas em crochê, nos dois pulsos. Ao pescoço, um grosso cordão preto finando em bolsinha com três canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para quê, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui não importa dizer qual, direi que era da área de ciências sociais. Não teria mais que 22 anos. Assim, era metade século 20, metade 21. Chamou-me de João, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: você mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se você disser que não mente, a conversa está encerrada. Foi então que perguntei: qual a razão disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que não havia verdade (grande novidade…), todas as pessoas tinham segredos.
Esse era o objeto de sua monografia com título algo assim (pelo menos, foi o que entendi): “De como as pessoas se apegam às mentiras, quando é mais fácil falar a verdade”. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como você trabalha tanto e tem tempo para escrever? Será que é você mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem à impressora e recebi o papel ainda úmido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferença é que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao vê-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra geração. E concluía: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, então, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em páginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: você parece careta, mas não é. Menos Mal.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2011.

